Alta do apoio à pena de morte é circunstancial, dizem ativistas
Publicado em 27/11/2006 16:53
Pesquisas de CNT/Sensus e Datafolha indicam que aumentou apoio à pena capital. Defensores dos direitos humanos vêem índice próximo a 50% como dentro dos padrões mundiais e criticam debate sobre criminalidade focado na repressão.
Bia Barbosa – Carta Maior
SÃO
PAULO – Pesquisas de opinião recentes comprovaram em números aquilo que
há tempos permeia a sensação da população: a violência é, cada vez
mais, uma preocupação dos brasileiros e brasileiras. Em março, o tema
apareceu, para 31% dos entrevistados, como o maior problema do país, em
um levantamento do Datafolha. Nesta terça (10), divulgação da pesquisa
da CNT/Sensus revelou que, para 90,9% da população, a violência cresceu
nos últimos anos.
Em paralelo a esta constatação – sem que se
possa afirmar que um dado é conseqüência do outro – também cresceu o
número dos que são favoráveis à pena de morte. No estudo da CNT/Sensus,
nos últimos quatro anos, o percentual subiu de 46,7% para 49%. Já entre
os entrevistados do Datafolha, 55% apóiam a prática, proibida no
Brasil. Em pesquisa anterior feita em agosto do ano passado, o número
era de 51%. Segundo a Folha de S.Paulo, o total de favoráveis
apresentado agora se iguala ao índice obtido em 1993 como maior desde
que o instituto de pesquisa investiga o tema.
Na opinião do
jurista Oscar Vilhena, diretor-executivo da organização
não-governamental Conectas Direitos Humanos e professor da Fundação
Getúlio Vargas, esta variação se deve a uma função circunstancial.
Historicamente, a média de brasileiros que defendem a pena de morte
girou em torno dos 50%. O número é semelhante em países que registram
altos índices de violência, como o Brasil. Para Vilhena, a subida mais
recente é fruto do impacto do assassinato do menino João Hélio no Rio
de Janeiro, em fevereiro passado. E, mesmo diante do barbarismo do
crime praticado, a mudança na opinião pública não foi grande.
“Não
enxergo este aumento como algo que represente, de fato, uma tendência
de alta significativa. É algo circunstancial. O assassinato de João
Hélio afetou a todos, mas não removeu a opinião contrária à pena de
morte de grande parte dessas pessoas. Acredito que, se não tivesse
havido um crime tão bárbaro como este, a média da população teria se
mantido”, avalia.
Para organizações defensoras dos direitos
humanos, o modo como a imprensa tem atuado diante das discussões sobre
as políticas de segurança pública também influencia no resultado das
pesquisas.
“A questão está aflorada, mas está claro que o
debate tem se dado apenas em cima das medidas repressivas e ilusórias,
como se isso fosse resolver o problema da criminalidade de um dia para
o outro. A discussão se faz em cima do endurecimento de penas, da
redução da maioridade penal e da implantação da pena de morte. Não
vemos, nos meios de comunicação e no discurso dos políticos, reflexões
sobre a ausência de políticas para a juventude, por exemplo. Isso e o
sensacionalismo feito em cima de determinados crimes, principalmente
quando a violência atinge a classes média e a classe alta, influenciam
nos resultados”, acredita Ariel de Castro Alves, coordenador do
Movimento Nacional de Direitos Humanos e membro do Conanda (Conselho
Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente).
No largo
espectro, a avaliação das entidades que atuam no campo é a de que o
aumento da defesa da pena de morte é conseqüência do Estado brasileiro
não ter enfrentado, com a devida competência, o problema da segurança
pública. Ainda que algumas regiões tenham apresentado reduções nos
índices de violência, o problema permanece e se disseminou para além
das grandes capitais.
“A persistência de uma vontade e
intenção bastante significativa em favor da pena de morte é uma
resposta a essa ausência de políticas consistentes e eficientes de
combate à criminalidade. A pena de morte é uma resposta mais intuitiva
de que algo deve ser feito, algo com equivalente peso ao sofrimento das
pessoas, mas é algo natural, que demonstra a incompetência do Estado de
enfrentar os problemas”, avalia Oscar Vilhena.
“Em vez de
tomar medidas efetivas de enfrentamento da violência, os políticos
acabam entrando no clamor popular – até para tentar recuperar a imagem
desgastada do Parlamento brasileiro – e apelam para discursos
demagógicos, sem tratar dos problemas centrais do campo”, acredita
Alves.
“No meu entendimento, hoje, o principal problema é a
própria polícia, tanto pela corrupção, que é generalizada, endêmica,
quanto pela falta de estrutura de trabalho. No Brasil, ao todo, no
máximo 3% dos crimes são solucionados. Não há prioridade para a área de
inteligência. Então, enquanto não houver uma reformulação das polícias
– algo que vem sendo falado no país desde 1997, quando eclodiu o caso
da Favela Naval em São Paulo mas que nunca saiu do papel – e enquanto
não houve políticas de enfrentamento ao crime organizado, infiltrado em
várias instituições do Brasil, a defesa do endurecimento das penas
continuará presente”, conclui o representante do Conanda.























