A tragédia brasileira
Publicado em 27/11/2006 16:53
Nos últimos anos, na mídia, multiplicou-se um tipo de analista
empenhado em analisar a crise brasileira à luz das raízes ibéricas.
Certamente, o corporativismo é uma praga, assim como a visão do Estado
paternalista, o empreguismo, a falta de oxigênio para o
empreendedorismo.
Mas não é a única faceta dessa praga secular brasileira, que
sistematicamente tem impedido o desenvolvimento. Há outro aspecto, um
desequilíbrio político e um predomínio técnico que tem sido
correntemente utilizado pela parte dita mais internacionalista da elite
brasileira.
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As grandes nações do mundo se fizeram sob a égide do trabalho. Mais
que isso, do desenvolvimento equilibrado, do apoio às pequenas e médias
empresas, do desenvolvimento regional, da inclusão social. A grande
saga inglesa e, depois, americana, foi construída em cima desses
primados, da inclusão, da busca do bem estar, da universalização dos
serviços essenciais, educação, saúde, democracia.
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A tragédia brasileira consiste em oscilar entre dois extremos do
que de pior existe em termos de elite. A períodos de extremo
corporativismo, sucedem-se outros de extrema espoliação do país,
através de um financismo rasteiro que tenta se legitimar em uma falsa
ciência.
Governar é a arte de iludir, especialmente com a cartelização da
opinião. Há doze anos se vem com a história da “lição de casa”, com a
ameaça de qualquer redução maior de juros trará o inferno da
hiperinflação de volta, e outros clichês que não resistem a nenhuma
análise de bom senso.
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Em 1994, quando colocava em prática a trágica política cambial do
período, que vitimou setores inteiros da economia, Gustavo Franco se
defendia alegando que a situação internacional era inédita, logo não se
poderia analisar a economia sob princípios desenvolvidos em outros
períodos.
Agora se volta ao mesmo lenga-lenga. Está-se no auge de um ciclo de
internacionalização financeira da economia, e de aparecimento de uma
nova potência, a China. Os resultados têm sido bolhas especulativas
recorrentes, desequilíbrios freqüentes, com os analistas internacionais
divididos apenas em relação à data quando se dará um ajuste mais brusco
na economia mundial.
Mas analistas pegam o superávit comercial brasileira para sustentar
que o quadro é outro, que a internacionalização é irreversível, e que
as empresas terão necessariamente que se adaptar a esse novo quadro.
Não bate, a não ser como elemento de defesa de seus interesses
específicos.
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A economia não é uma ciência de grandes mistérios, mas se presta a
muitos engodos. Primeiro, não há ajuste empresarial suficiente para
enfrentar apreciações tão renitentes do real. Mesmo se houvesse, todo o
aumento de eficiência, em vez de permitir às empresas se projetarem
internacionalmente, serve apenas para garantir a sobrevivência. Todo o
esforço empresarial de melhoria de processos não tem como fruto aumento
da rentabilidade, permitindo a reinversão dos lucros em ampliação da
produção e do emprego. Servem apenas para compensar o real forte. E
isso na melhor das hipóteses, quando as empresas conseguem sobreviver.























