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Povo Guarani não quer só comida

Publicado em 09/03/2010 13:26

Nesta segunda-feira (8/03) o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), visitou aldeias Guarani no município de Dourados (MS) onde foram constatadas as condições degradantes e de miséria a que estão submetidas pessoas que ali vivem. Segundo informa a SEDH, a visita tem por objetivo verificar as denúncias de violações dos direitos humanos, com a finalidade de ser elaborado relatório com recomendações para ser encaminhado às autoridades estaduais e federais.
Povo Guarani não quer só comida

Inesc

Considerado um dos povos originários com população de maior presença territorial no continente sul-americano, os Guarani tem suas aldeias e/ou comunidades localizadas na região centro-sul do Brasil, no noroeste da Argentina, na região do Chaco no Paraguai e na porção leste da Bolívia. Do seu território tradicional, hoje partilhado por quatro Estados constituídos no processo de colonização européia desencadeado no final do século XV, os Guarani ocupam hoje pequenas ilhas de terra, no mais das vezes cercadas de monocultivos (cana-de-açúcar, soja etc.) e sob forte discriminação racial e cultural.

Várias comunidades familiares vivem acampadas na beira de rodovias. Algumas, com sorte, próximas a uma porção de mata, onde podem desfrutar de uma sombra e dela retirar matérias primas para produção de artesanato e lenha para fazer fogo e preparar alguma comida. Em sendo possível permanecer algum tempo, o suficiente para cultivarem mandioca, milho, amendoim, batatas entre outras, o fazem, como bons agricultores que são. Não obstante a precarização das condições de vida vivenciada por vários grupos familiares Guarani na Argentina, Brasil e Paraguai, as estimativas são de que a população mais do que dobrou nos últimos 25 anos e o perfil etário é extremamente jovem, com mais da metade da população situada abaixo dos 15 anos de idade. Os dados foram produzidos pelo Projeto Mapa Guarani Ñande Retã, uma parceria entre inúmeras instituições não governamentais e universidades nos três países. Isso parece indicar que a gente Guarani se nega a ser derrotada pela violência, racismo, preconceito, colonialismos e a precarização das condições de vida, ainda que com poucos recursos materiais.

No sul do Mato Grosso do Sul existe hoje mais de 20 precários acampamentos Guarani-Kaiowá na beira de estradas, ao lado de imensas fazendas constituídas com facilidades e incentivos financeiros públicos, que encamparam as terras ocupadas por famílias e comunidades guarani, para depois enxotá-las para fora da cerca com apoio judicial e policial. Por falta de terra para cultivar, matas para buscar uma fruta e caçar, de peixe para pescar e de água de qualidade para beber, vive-se ali na dependência de cestas básicas, da merenda escolar no caso das crianças que freqüentam escolas. Com sorte, algum velho recebe aposentadoria, garantindo algum dinheirinho no final do mês para seus familiares.

Não obstante as inúmeras ações de caráter “humanitário” que a partir de 2003-2004 foram implementadas junto à população, quando a mortalidade infantil chegou a níveis alarmantes, a realidade local, os resultados alcançados não apontam uma mudança significativa na tendência de precarização da vida. Estudos realizados nos últimos dois anos pelo Núcleo de Estudos de Populações, da Universidade de Campinas, em quatro aldeias/comunidades Guarani no estado de São Paulo, demonstram que mesmo no estado mais rico da federação a precarização está presente.

E com estas e outras preocupações que colocamos a disposição para um público mais amplo dois vídeos que de alguma forma se relacionam com questões aqui apontadas. O primeiro mostra comunidade Guarani-Mbya sendo expulsa pela Justiça Estadual em Eldorado (RS), com apoio Brigada Militar, de um acampamento situada à beira da Estrada do Conde, município de Eldorado do Sul, próximo à cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Isso aconteceu no dia primeiro de julho de 2008.

http://video.google.com/videoplay?docid=5805111208032922644&hl=en#

O segundo vídeo trata do cotidiano das crianças Guarani-Kaiowá que vivem acampadas às margens da BR 163, após “despejo” ocorrido em setembro passado da área que forma hoje a Fazenda Santo Antônio da Boa Esperança, em Rio Brilhante, Mato Grosso do Sul. A matéria foi veiculada na TV Campo Grande (SBT-MS):

http://www.youtube.com/watch?v=8_nFJCXqFUI

 

Ricardo Verdum - assessor do Inesc

 

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