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Um bonde chamado humanidade

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Por Márcia Acioli, assessora do Inesc
Um bonde chamado humanidade

Inesc

Márcia Acioli

Sexta-feira, dia 22 de maio, os/as alunos/as do Centro de Ensino Médio 3 da Ceilândia viveram uma tarde diferente. Adolescentes e jovens de uma escola castigada pelas pelas marcas da exclusão, da violência, da mídia sensacionalista que friamente constrói e estabelece estigmas sociais resolveram dar uma mostra do que são capazes.

Um grupo de alunos, apoiado pelo Inesc, elaborou uma rica programação que contou com as presenças do Ministério Público representado pela Dra Ana Luísa Rivera, do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente representado pela Perla Ribeiro e, finalmente, com a participação do rapper de prestígio nacional GOG e a cantora de rara qualidade estética e força poética Éllen Oléria. Artistas importantes, ambos de origem das periferias do DF. A escola também foi prestigiada pela UnB com as presenças da Prof. Regina Pedroza e de seus alunos.

O evento foi integralmente conduzido pelos jovens da escola, que com uma equipe bem constituída distribuiu tarefas e se responsabilizou por todo o andamento da tarde. A abertura contou com a interpretação criativa da aluna  Gleyce Cris do poema de Drummond: No Meio do Caminho. A idéia era chamar atenção para o que consideramos como obstáculos da vida.

Estava no palco uma enorme madeira circular. Todos os presentes foram convidados para falar sobre as pedras de seus caminhos e colar na madeira um caco de azulejo para formar uma grande mandala colorida. Esta foi considerada como um símbolo da união possível para a superação das adversidades, dos problemas, das injustiças sociais. Ao mesmo tempo uma prancheta rodava o auditório com a pergunta: qual é a pedra que fica no meio de seu caminho? Drogas, desemprego, universidade de difícil acesso foram algumas pedras citadas pelo público.

A calorosa apresentação com músicas, poesias, cantos de GOG e de Ellen foi uma fala aos corações. GOG destacou que os problemas sociais, políticos e econômicos existem e são sérios. Diz o rapper que a maior pedra de seu caminho é ele mesmo que deve ter a sabedoria para enxergar o seu papel na superação destes. Cansou de atribuir aos outros a responsabilidade pela existência dos problemas. O recado ficou: é preciso olhar para dentro e para fora simultaneamente. Já a Ellen destaca a oportunidade de falar aos jovens e dar seu recado no lugar de mulher, negra e lésbica.
Suas vozes ressoaram com força e emoção sacudindo corpos, corações e mentes. Aos poucos os meninos e as meninas ocuparam o palco e mostraram as suas expressões. Dançaram com virtuose, revelando seus talentos e suas paixões.

José Wiston, o aluno apresentador, repetia a indignação pela ausência da imprensa que prefere o sensacionalismo barato que destrói suas imagens à mostrar a beleza de suas culturas. “A juventude de periferia quer e merece respeito. Queremos inclusão social e não inclusão criminal”. O evento foi tomado pela vibração trazida pelos artistas e não restou tempo para o debate. No entanto todas as convidadas para o debate manifestaram enorme alegria por terem participado de um momento tão forte e se colocaram à disposição para retornar à escola.

A tarde foi encerrada com apresentações de animações de qualidade indiscutível produzidos por alunos e professores do EJA – Educação de Jovens e Adultos.

Afinal de que escola falamos? E quem são os jovens meninos e meninas do Centro de Ensino Médio 03 da Ceilândia? O CEM 03 é uma escola que um dia foi referência na qualidade de educação, mas hoje está duramente marcada por episódios que a colocaram na berlinda. Uma escola que tem alunos e alunas calados pela sensação de impotência perante uma mídia pesada que não os ouve, que não considera suas vozes. Calados também pela ausência de um projeto pedagógico que os reconheça como sujeitos inteligentes, cidadãos e cidadãs produtores de conhecimento e cultura, pela ausência de um projeto que costure vozes fazendo ressoar ao mundo que a juventude de periferia é bonita e tem valor. Falamos aqui de jovens de periferia, pardos, brancos e negros marcados por relações de desrespeito, racismo e abandono das políticas públicas.

Eles e elas só querem chances iguais, a segurança de sair de casa sem serem interpelados pela polícia, querem fazer e participar da arte e cultura da cidade e do país. Desejam não ter constrangimento ao vestir o uniforme da escola. Querem também que a droga não seja a única alternativa de lazer, querem estudar, trabalhar e caminhar pelas ruas sabendo que fazem parte de um bonde chamado humanidade.
 

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Comentários (3)

Usuário Anônimo 26/05/2009 10:12
Não estive no evento, mas li a respeito, parabéns. A justiça demora mas não falha, continuem mostrando à sociedade que vocês tambem são gente e da melhor qualidade. A justiça que me refiro, é a justiça de Deus, creiam nisso, que é a verdade maior! Não acredito na justiça dos homens e é minha fé que me norteia. Ceilandia, eu tinha receios de ir a essa cidade. Depois que me envolvi com pessoas de ai, piorou minha ideia sobre Ceilandia, mas nem tudo esta perdido. Não sei quem são vocês, mas tenho certeza de que são pessoas do bem, no meio de tanta contradição. Espero que continuem nesse caminho e Deus os abençõe. Todo caminho tem espinhos e pedras, mas esses detalhes é que enriquecem nossas vidas. Não se importem com a midia, eles vivem disso, sensacionalismo, a sociedade vai reconhecer vocês como um todo e a justiça será feita. O amadurecimento os fara mais fortes. As verdades da vida vão aparecendo e as soluções chegam no tempo certo. Deus nada nos da antes nem depois, e sim, na hora certa, isso aconteceu comigo. OK? Um grande abraço para cada um de vocês! Hernán Hernández.
Usuário Anônimo 26/05/2009 18:46
A pedra de Drummond é fértil. Macunaíma, de Mario de Andrade, disse “não vim a mundo para ser pedra”. Em ambos os escritores a “pedra é fértil”. É um obstáculo que se supera. Refaz o caminho e o caminhante. A atividade do Inesc é como a pedra de Drummond. Recupera o corpo excluído. Retoma o sujeito e fala como as pedras falam: ruidosos e mágicos. Faz a esperança sorrir como uma criança sob o sol com chuva. O que fazer se eles são felizes assim? Parabenizar.
Usuário Anônimo 03/06/2009 15:21
Super bacana a iniciativa, temos que apoiar iniciativas como essas par levar as periferiferias o nosso direito, ao espressar, só assim nossa voz chegará ao poder e assim ecoará fazendo mudar algo que aqui em baixo está errado. Temos que agradecer as pessoas que a frente desse projeto nos proporcionam tardes como essa. Obrigado ao INESC e seus representantes em especial a Marcia. O projeto tem que se multiplicar esse ano 06 escolas ano que vem 12 e assim atingir um patamar nacional.
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