Ir para o conteúdo. | Ir para a navegação

Ferramentas Pessoais
Seções
Você está aqui: Página Inicial Notícias Notícias do Inesc 2008 Desprezo pela vida do cidadão
Você está aqui: Página Inicial Notícias Notícias do Inesc 2008 Desprezo pela vida do cidadão

Desprezo pela vida do cidadão

Publicado em 26/03/2008 15:28

Estado de Minas

BR-040 tem 509 quilômetros quase intransitáveis, por falta de manutenção. Trecho entre o trevo de Curvelo e Felixlândia mostra o descaso com a segurança do viajante
Fábio Fabrini
BR-040
Fotos: Euler Júnior/EM
Cegonheira carregada de carros importados em um dos muitos acidentes no maltratado e não recuperado trecho entre Belo Horizonte e Brasília

Uma das rodovias mais movimentadas e vice-campeã em mortes em Minas Gerais, a BR-040, que liga Belo Horizonte a Brasília e ao Rio de Janeiro, está abandonada há quase quatro meses. Desde dezembro, nenhum serviço de manutenção é feito, o que deixa a pista praticamente intransitável em vários trechos e expõe a população a acidentes. O problema atinge 509 quilômetros da estrada, o que corresponde a 67% dos 745 quilômetros administrados pelo Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (Dnit). Os contratos com as empreiteiras que faziam os serviços venceram, mas o órgão não contratou outras para substituí-las. Na melhor das hipóteses, a situação só deve se normalizar a partir de junho, o que deixa todos que trafegam pela rodovia à mercê da sorte.

As informações sobre a situação da rodovia são do próprio Dnit, que repassou ao Estado de Minas a relação dos trechos sem conservação. A maior parte deles se concentra na rota BH-Brasília, cujo movimento chega a 10 mil veículos por dia. O descaso começa no km 0, divisa de Minas com Goiás, e vai até o 423, em Curvelo, na Região Central (veja mapa na página 22). Dali até a capital mineira, a manutenção vem sendo feita, mas o excesso de remendos no asfalto dificulta o tráfego. Além disso, a pista está sendo duplicada entre Sete Lagoas e o trevo de Curvelo, o que exige ainda mais atenção.

Ziguezague perigoso e inevitável para seguir adiante

Em direção ao Rio, mais 86 quilômetros de pista, com fluxo diário de 15 mil veículos, cerca de 40% caminhões, estão relegados à sorte, entre a capital e Conselheiro Lafaiete. O Dnit cuida apenas do trecho entre Lafaiete e Juiz de Fora, com 127 quilômetros, pois os demais 69, até a divisa com o Rio, estão sob responsabilidade de uma concessionária privada.

Além de escoar boa parte da produção mineira, a BR-040 é a segunda mais movimentada e violenta do estado. De acordo com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), foram 4.062 acidentes no ano passado, com 1.983 feridos leves e 721 graves. O número de mortos (197) só é menor que o registrado na BR-381 (284), considerada a rodovia da morte, entre a capital e Governador Valadares.

Desde fevereiro, o EM denunciou duas vezes a precariedade entre BH e Lafaiete. No trecho, os buracos obrigam o motorista a trafegar na contramão, caso não queira sofrer acidentes ou estourar os pneus. Pontes e viadutos não têm guarda-corpo e, em vários pontos, a sinalização está encoberta por poeira e mato. Não por acaso, a rota concentra quase um terço das mortes registradas na rodovia em 2007.



Na placa, o péssimo estado do asfalto não passa de defeito

O caminho para Brasília não fica atrás. Em alguns pontos, como entre João Pinheiro e Paracatu, na Região Noroeste, policiais rodoviários, para evitar tragédias, fizeram um tapa-buracos às vésperas da semana santa. Segunda-feira, a equipe do EM percorreu outro segmento e constatou o drama de quem precisa usar a 040. Os 54 quilômetros entre o trevo de Curvelo e Felixlândia viraram pista de rali.

Logo no km 414, uma sucessão de buracos toma todas as faixas e, ao motorista, resta ziguezaguear na contramão. Dois quilômetros adiante, no sentido BH, a sinalização horizontal está apagada. Como não há sinalizadores noturnos, dirige-se às cegas depois do pôr-do-sol. No km 405, o cenário é de bombardeio. São tantas as crateras que sobra apenas o acostamento, em desnível, para o trânsito. “A estrada está uma vergonha, não é?”, aproxima-se o caminhoneiro Carlos Múcio de Oliveira, de 54 anos, que conhece bem o trecho. “A situação já não era boa e piorou muito com as chuvas. Na semana passada, um colega passou três dias acampado aqui, porque quebrou o eixo numa dessas ‘panelas’”, conta.

À BEIRA DA TRAGÉDIA O que se vê nos kms 404, 401, 398, 395 e 391 é a repetição do descaso. Em viagem para Três Marias, o policial militar Marcelo Machado, de 46, foi obrigado a parar na beira da estrada com os dois filhos, a mulher e os sogros, para trocar o pneu rasgado na buraqueira. “Desde o ano passado, é a segunda vez que isso ocorre. Dá vontade de não passear mais. O asfalto deve estar assim porque os políticos vão para Brasília de avião”, criticou.

Cem metros adiante, outra vítima. Além de furar o pneu no mesmo local, o funcionário público Willian Kaizer, de 19, bateu no veículo do pai, que seguia à frente. “Tentei desviar de uma loca, caí em outra e não consegui frear a tempo. Felizmente, foi só um pequeno amassado, mas poderia ser uma tragédia”, resumiu ele, que também é reincidente. Na viagem de ida a Juiz de Fora, os buracos já haviam rasgado um de seus pneus. “Tive que comprar um novo, que custou R$ 220. Agora, terei que gastar mais R$ 600 para acionar o seguro e consertar a lataria”, reclamou, acrescentando que estudará um pedido de compensação à Justiça.

Marcelo e Willian seguiram em frente. Passaram na ponte sobre o Ribeirão das Almas, perto de Felixlândia, que, como o viaduto homônimo, em Congonhas, não tem mais muretas de proteção. Trinta e dois metros delas caíram e o que restou está escorado por gravetos. Enfrentaram ainda turbulência nos kms 389, 388, 387, 384, 381, 378, 377, 376, 371 e 369, ponta final do trecho. Dificilmente, viram a placa que anuncia a chegada a Felixlândia, encoberta pelo mato.

Procurado pelo EM, o Dnit informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que aguardava a aprovação do Orçamento-Geral da União (OGU) para abrir licitação e contratar empreiteiras para a manutenção. Justificou que, sem isso, não havia garantia de recursos para dar continuidade à conservação. O OGU foi votado no início do mês pelo Congresso e quatro editais foram publicados. A previsão é de que os consertos só comecem em junho, se a liberação de recursos não atrasar os procedimentos.

A assessora de Política Fiscal e Orçamentária do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), Eliana Graça, diz que faltou planejamento. Segundo ela, o governo, de fato, não tem como usar recursos de 2008 antes da aprovação do Orçamento. Mas poderia recorrer às sobras do exercício anterior, os chamados restos a pagar, para manter os serviços. “Se os contratos venciam em dezembro, deveria ser feita uma previsão, no orçamento de 2007, para garantir a continuidade. No caso das rodovias, há uma série de coisas em jogo, entre elas vidas humanas”, afirma.
Ações do documento

Comentários (0)

Apoio Institucional
  • apoio18.png
  • apoio19.png
  • apoio13.png
  • apoio10.png
  • logoCEA.png
  • apoio9.png
  • apoio6.png
  • logosnf.png
  • logobrot.png