O DEBATE DO DESENVOLVIMENTO PRECISA GANHAR FÔLEGO
Adhemar Mineiro
Entrevista a Luciana Costa
Inesc: Quais seriam os princípios fundamentais a serem considerados para a construção de uma agenda alternativa de desenvolvimento?
A.M.: São vários os elementos de uma agenda alternativa de desenvolvimento. Acho que a questão do “projeto nacional de desenvolvimento” é a questão fundamental. E, dentro desse projeto, é preciso ver quais os vários elementos que podem vir a fazer parte dele. Isso é o mais importante nesse momento em que as atenções do país estão voltadas para essa questão do crescimento econômico e em que há uma proposta do governo a respeito de crescimento econômico. Frente a isso, a sociedade deve fazer algumas perguntas: qual é a qualidade do crescimento que está sendo proposto? a quem ele vai atender? quais setores sociais serão atendidos? como esse crescimento se relaciona com a sociedade que existe hoje? como se relaciona com a política internacional? como se relaciona com a melhoria das condições de vida da população? Enfim, esse é o eixo que deve nortear a discussão de uma agenda alternativa. Em novo projeto de desenvolvimento, a questão do crescimento econômico é uma questão, mas não é a única.
“Acho que a questão do ‘projeto nacional de desenvolvimento’ é a questão fundamental. E, dentro desse projeto, é preciso ver quais os vários elementos que podem vir a fazer parte dele.”
Inesc: Falando especificamente sobre as políticas de negociações comerciais, o que está colocado como desafio e como deve ser trilhado um caminho alternativo em que se coloque, inclusive, o enfrentamento das desigualdades e de outras questões sociais?
A.M.: O que se teve até agora foi a busca de utilização das negociações comerciais como um elemento para se obter mais mercado, ou seja, para viabilizar uma estratégia exportadora. Contudo, se você vai discutir desenvolvimento de um ponto de vista mais amplo, terá que perguntar: negociações comerciais para quê? Que tipo de inserção você vai precisar ter no mundo, no comércio internacional, para atender a esses objetivos? Seria uma nova política de desenvolvimento? Mas, como não se tem isso definido, hoje todos os atores se mexem muito pragmaticamente em torno de seus interesses nos processos de negociação e na pressão que fazem em cima do governo. Alguns, que acham que vão ganhar, tentam apressar esses processos. A grande maioria (que acha que tem coisas a perder) junta forças e monta uma coalizão de veto tentando evitar que esses processos sigam adiante. Porém, isso não é suficiente. Isso determina uma posição defensiva, que acaba inviabilizando uma série de acordos, mas não é suficiente para definir uma estratégia. É preciso definir o quê exatamente se quer com esse projeto de desenvolvimento e, ainda, como que a dimensão da política internacional entra aí. Inclusive, dentro dessa política internacional, deve-se definir qual o papel das negociações comerciais e como se deveria caminhar. Particularmente, acho que, em uma estratégia de desenvolvimento diferenciada, a questão da integração regional e da integração com outros países do sul ganharia uma relevância muito grande. Mas esse tema tem que ser muito discutido.
“acho que, em uma estratégia de desenvolvimento diferenciada, a questão da integração regional e da integração com outros países do sul ganharia uma relevância muito grande.”
Inesc: O campo social está conseguindo se posicionar, se mobilizar para discutir essa questão e conseguir de fato influir no processo?
A.M.: Está discutindo de uma forma defensiva. Ou seja, hoje os vários segmentos sociais são capazes de dizer o que não querem e o que acham que vai conflitar com seus interesses imediatos. Mas ainda não são capazes de dizer o que querem. Essa incapacidade de dizer o que se quer significa que não se tem claro ou que não se tem consensuada outra estratégia de desenvolvimento nacional. A partir do momento em que isso vai ficando mais claro, é mais fácil você entrar no debate de uma forma ativa. Enfim, hoje os movimentos sociais são capazes de fazer coalizões dizendo o que eles não querem, mas não conseguem dizer o que querem exatamente nesse processo.
“os vários segmentos sociais são capazes de dizer o que não querem e o que acham que vai conflitar com seus interesses imediatos. Mas ainda não são capazes de dizer o que querem.”
Inesc: Qual a dificuldade para se construir essa formulação alternativa?
A.M.: A sociedade brasileira é uma sociedade complexa. Teve todo um debate de alternativas ao longo da década de noventa, mas que foi colocado em segundo plano no começo governo Lula (que havia vencido a eleição com essa perspectiva). Porém, em função de uma série de problemas herdados da crise do governo anterior, o governo Lula acabou perdendo essa perspectiva de alteração. Só nos últimos dois anos é que tem voltado a fazer a discussão do modelo de desenvolvimento. Na verdade, o debate não tem conseguido ganhar fôlego até agora. Na prática, vem se resumindo à questão de pressões por maior crescimento econômico. Contudo, isso é insuficiente.