ÉTICA E PARTICIPAÇÃO SOCIAL PARA MUDAR O BRASIL
Lúcia Avelar
Entrevista a Luciana Costa
Inesc: Quais os princípios fundamentais devem ser considerados no debate de uma agenda alternativa de desenvolvimento?
L.A: O primeiro de todos é o princípio ético. É a ética que significa a boa vida para todo e qualquer ser humano no planeta terra. Acho que a questão ética é essa boa vida. Internacionalmente falando, acho que temos que construir um respeito ao outro independentemente de sua origem, da sua nacionalidade, da sua cultura, da sua religião, do sexo, da sua etnia, da sua raça, etc. Acho que está faltando isso, o que vejo com muita preocupação. Acredito que as oportunidades de trabalho hoje, cada vez mais, se escasseiam. E isso teria de ser mais uma responsabilidade dos Estados, no sentido de investir para compensar as deficiências dessa economia globalizada, que representa redução de oportunidades para todos. No caso brasileiro, especificamente, eu acho que a prioridade é reconstruir as nossas instituições políticas. Acho que nós temos, aí, um passado que corresponde ao mundo rural, ao Brasil rural, e com uma conformação muito a partir desse princípio do mundo rural, do mundo regional.
“(para construir uma agenda alternativa de desenvolvimento) é preciso respeitar o princípio ético e [...] reconstruir as nossas instituições políticas”
Porém, vejo o Brasil hoje totalmente urbanizado, ou quase totalmente urbanizado, precisando de governos que levem em conta essas disparidades sociais e que assumam essa responsabilidade. O que eu penso hoje é que a sociedade organizada tem, cada vez mais, que pressionar os governos no sentido de invistam no social. Essa vai ser a grande diferença, o grande desafio, já que nenhum governo até hoje neste país definiu a questão social como sendo a primeira prioridade. Isso significa superar séculos de uma estrutura paternalista e ao mesmo tempo mentirosa, porque na verdade o paternalismo esconde o princípio da desigualdade permanente e eterna. Então, os governos é que devem assumir a questão social e, nesse ponto, o grande desafio é a sociedade organizada chegar lá, até esses governos.
“os governos é que devem assumir a questão social e, nesse ponto, o grande desafio é a sociedade organizada chegar lá, até esses governos.”
Inesc: Hoje, há um predomínio do econômico sobre o social. Como a sociedade pode atuar em defesa da inversão dessa prioridade, e como criar mecanismos de participação para que essa sociedade tenha uma voz mais ativa nos processos de decisão?
L.A: É um trabalho de médio e longo prazos e que tem que começar agora. Primeiro, ensinando política para todos e todas e em todas as escolas – tal como nós temos um projeto no Instituto de Ciência Política [da UnB] chamado “política na escola”. Ou seja, vamos fazer com que cada jovem, cada indivíduo maduro, o mais velho, entendam como a política faz diferença no seu cotidiano, entendam como as decisões políticas têm impacto sobre a vida deles, e o que depende da política para que todos/as tenham uma vida melhor. E quando esse entendimento estiver generalizado a sociedade terá uma voz mais ativa. Acho que esse é um trabalho da sociedade organizada, isto é, participativa no sentido de levar esse conhecimento, difundir esse conhecimento e organizar grupos cada vez mais amplos na sociedade.
Inesc: E a participação é, de fato, um dos caminhos para se construir uma proposta alternativa de desenvolvimento?
L.A: Sem dúvida, e em todos os países do mundo. O que nós estamos pregando é que, pela organização da sociedade, que é uma das formas da democracia participativa, nós podemos influenciar esse sistema político engessado, que vive das regras do sistema representativo.
“O que nós estamos pregando é que, pela organização da sociedade, que é uma das formas da democracia participativa, nós podemos influenciar esse sistema político engessado”