É PRECISO REIVENTAR A POLÍTICA
Chico Oliveira
Entrevista a Luciana Costa
Inesc: Quais são os princípios fundamentais que devem ser levados em conta para a construção de uma agenda alternativa de desenvolvimento?
C.O: A questão fundamental é como reinventar a política. A política hoje é um espaço de irrelevância que os movimentos sociais não alcançam. Os partidos políticos foram engolfados por essa irrelevância da política e a cidadania não pode atuar. A política é a invenção grega mais eminente porque é através dela, e não pela economia, que você corrige as distorções sistêmicas. Quando a política fica anulada, os cidadãos perdem a importância. Então, é preciso reinventar a política. Essa reinvenção tem que partir dos próprios cidadãos, de suas organizações, para poder fazer com que a política seja de novo o elemento da transformação, pois agora ela não é.
“(para construir uma agenda alternativa de desenvolvimento) é preciso, primeiramente, reiventar a política, para poder fazer com que a política seja de novo o elemento da transformação, pois agora ela não é”
Inesc: O senhor fala, então, no esvaziamento da política e no predomínio da questão econômica?
C.O: Exatamente isso: há uma colonização da política pela economia. Isso torna a política irrelevante porque a economia – capitalista, evidentemente, que é a que conhecemos, na qual vivemos - obedece a constrangimentos muito fortes. A economia não tem espaço para a ação cidadã porque é o reino da propriedade privada. Enquanto a política, não. Por isso a política deve controlar a economia. Quando isso não acontece, o desastre é quase fatal.
“A economia não tem espaço para a ação cidadã porque é o reino da propriedade privada. Enquanto a política, não”
Inesc: Como o senhor vê essa situação, que se mantém no segundo governo Lula, de termos uma política econômica alimentada pela idéia hegemônica de que não há outra alternativa?
C.O: Eu vejo de uma forma muito pessimista. O governo Lula já foi engolfado; não é que ele será, ele já foi engolfado e está submetido a esses constrangimentos. E, ao contrário de reagir, ele ajuda: é um barco remando a favor da maré. Portanto, o governo fica nesse terreno entre vender produtos brasileiros no exterior, virando garoto-propaganda por excelência do Brasil, combinando com a venda de políticas assistencialistas, que tomam o lugar da política.
“O governo Lula já foi engolfado; não é que ele será, ele já foi engolfado e está submetido a esses constrangimentos”
Inesc: Qual papel deve ter, então, o campo social, as organizações sociais, nesse contexto, visando à construção de uma agenda alternativa de desenvolvimento?
C.O: O primeiro papel é o de inventar formas novas de atuação, formas novas de organização e associação na própria sociedade para poder intervir. Isso é uma tarefa complicadíssima porque o capitalismo contemporâneo tem, talvez, mais do que no passado, elementos de coerção sobre os indivíduos e sobre as organizações que lhes retiram quase todo o poder de intervenção. É uma tarefa árdua, longa, mas tem que ser feita. Eu não sou otimista porque a minha idade também já me leva mais para o campo dos profetas apocalípticos.
Inesc: Como é que o senhor vê o papel da mídia na construção da idéia hegemônica de que não há um caminho alternativo à atual política econômica?
C.O: Eu não vejo com nenhum otimismo. A grande mídia, quer dizer, a que penetra nos lares, a que forma as cabeças, as opiniões, essa está a favor da privatização da vida, a favor da irrelevância da política. Veja bem: durante o primeiro mandato de Lula, houve a chamada crise do mensalão, escândalo de corrupção que atingiu membros eminentes do governo. Sem entrar no mérito se eram ou não, o que se notava na mídia era o seguinte: todos os âncoras mais radicais, aqueles mais radicais na crítica ao governo, até os âncoras mais soft, toda a imprensa escrita e falada batia numa tecla “essa crise política não pode afetar o desempenho da economia”. Isto é tudo sobre a irrelevância da política. Uma crise política que não afeta a economia não vale a pena.