DESENVOLVIMENTO COM INCLUSÃO SOCIAL E CRESCIMENTO ECONÔMICO
Maria Regina
Entrevista a Edélcio Vigna, Luciana Costa
Inesc: Quais são os princípios fundamentais que devem ser levados em conta na construção de uma agenda alternativa de desenvolvimento?
M.R.: Em primeiro lugar, que a agenda alternativa de desenvolvimento exista de fato. Acho que isso é fundamental. Isso significa voltar à idéia de um projeto de desenvolvimento; mas, desta vez, em que a inclusão social e o crescimento econômico sejam condições cruciais. Essas duas dimensões são fundamentais para você garantir uma sociedade mais justa, mais democrática. Ou seja, o projeto precisa estar voltado para o crescimento e para a inclusão social.
Que a agenda alternativa de desenvolvimento exista de fato. Acho que isso é fundamental. Isso significa voltar à idéia de um projeto de desenvolvimento; mas, desta vez, em que a inclusão social e o crescimento econômico sejam condições cruciais.
Inesc: No que diz respeito à política externa, quais são os principais desafios do Brasil?
M.R.: Os desafios para o Brasil na política externa são vários, nesse momento. De certa forma, por uma série de fatores, o consenso que havia com relação à política externa não existe mais hoje. Em parte, isso é positivo porque abre um espaço para a participação da sociedade civil. Ou seja, como foi colocado anteriormente no seminário, hoje existem diferentes visões, diferentes interesses; então, tem mais conflito de visões sobre aquilo que deva ser a política internacional; e isso abre espaço para uma participação da sociedade nesse processo.
No entanto, a dimensão regional é crucial e, nesse sentido, a dimensão regional da política internacional ganhou certa novidade nos anos recentes. É muito importante o Brasil conseguir um desenvolvimento mais equilibrado, um desenvolvimento auto-sustentável, com inclusão social, e do ponto de vista da sua “reviabilização” na região. Inclusive, a dimensão regional da política externa é importante para superar uma herança – uma herança praticamente colonial – que faz a gente se voltar muito mais para fora, para os países mais avançados, do que para nós mesmos. Afinal de contas, nós somos da mesma região, ainda que falemos línguas diferentes.
A dimensão regional da política externa é importante para superar uma herança – uma herança praticamente colonial – que faz a gente se voltar muito mais para fora, para os países mais avançados, do que para nós mesmos
Inesc: Como é que o Brasil tem se comportado, na sua avaliação, na relação com os países da América do Sul?
M.R.: Há uma disposição grande. Inclusive, existe a disposição de mudar a dimensão “comercialista’ do Mercosul, de ampliar o próprio Parlamento do Mercosul. Tudo isso traz uma outra amplitude e alcance. O Mercosul tem de ser o fulcro da política, e a partir daí incorporar os demais países. É claro que isso não é fácil, porque a região hoje é muito mais diversa.
Contudo, não está claro para mim se a sociedade brasileira quer uma política de integração de fato. A integração não pode ser um projeto só do Estado. Para que seja bem sucedida, tem que ser um projeto da sociedade. Foi assim na União Européia. E não está claro até que ponto a sociedade brasileira quer isso. Não está claro o que querem os diversos setores da sociedade. O momento está colocado e é crucial para o futuro do Mercosul e do projeto de integração. Esse momento abre um espaço para a participação da sociedade, sem sombra de dúvida.
Inesc: E esse campo social tem participado efetivamente? Como é que você avalia essa participação?
M.R.: A criação do Parlamento do Mercosul vai gerar um espaço de participação, porque tem que ser pela política que as pessoas vão participar. É crucial essa politização, no sentido de criar mais conexão, mais vínculo entre os parlamentares e os setores organizados da sociedade. É fundamental que o Mercosul saia de uma política exclusivamente de Estado e vire uma política do Brasil. O Mercosul vive um momento muito complicado do ponto de vista de seus conflitos internos, do ponto de vista da perda de apoio de setores econômicos – que hoje têm interesses mais globais. Apesar disso, acho que é o momento de se retomar algumas dimensões institucionais. Esse é um legado muito importante para o qual a atenção deve ser chamada. É um legado importante porque, a partir dele, mudamos a relação com a Argentina, com nossos vizinhos. Acho que o Brasil tem um papel central – até por ser o país mais rico da região e porque qualquer projeto que exista de integração não pode ser um projeto com hegemonia, que é uma coisa do passado. Apesar disso ser um desafio grande, sou otimista. Eu sou “integracionista”.
Inesc: No plano global, acompanhamos a paralisia da Organização Mundial do Comércio. Na esfera regional, temos alguns projetos de integração regional que disputam entre si. Temos a Alba, do Chaves; temos o Mercosul, da Argentina e do Brasil. Como a senhora vê essa disputa desses projetos? E a Venezuela, vai entrar para participar do Mercosul?
M.R.: A disputa de projetos certamente é complicada. O problema da Alba é que ela supõe que os participantes tenham que ter convergência político-ideológica. O projeto de integração não necessariamente tem que ter uma convergência absoluta. Afinal, o que temos hoje na região é fruto da democracia, de experimentos democráticos diferentes. Certamente, o experimento democrático boliviano é diferente do experimento brasileiro. Porém, eles têm que encontrar um espaço de cooperação, de negociação. O problema da Alba, um pouco pela liderança da Venezuela, é achar que a convergência tem que ser também desse ponto de vista em conflito.
Eu sou confiante de que, de alguma forma, a visão mais estratégica de futuro vai fazer com que haja uma convergência. Entretanto, para que seja possível uma cooperação, o projeto tem que ser suficientemente flexível para caber as diferenças políticas vividas por cada país, seus diferentes processos de consolidação democrática. O que não pode ter é hegemonismo de nenhuma parte. Nesse sentido, o projeto deve ser democrático. Não podemos repetir o que os impérios fizeram conosco. Mesmo que o Brasil seja um país que tenha investimento (como gostam de dizer os críticos, “o gringo da vez”), isso não pode ocorrer; senão, tudo mais perde qualquer sentido.
Para que seja possível uma cooperação, o projeto tem que ser suficientemente flexível para caber as diferenças políticas vividas por cada país, seus diferentes processos de consolidação democrática. O que não pode ter é hegemonismo de nenhuma parte. Nesse sentido, o projeto deve ser democrático.