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Em favor do sistema de cotas

Publicado em 13/06/2008 12:05

No artigo "Fantasias racialistas", Atila Roque apresenta argumentos em favor do sistema de cotas para o ingresso em universidades públicas. Em sua avaliação, este debate tem sido marcado por argumentos falaciosos daqueles que se opõem às cotas. "Um desses argumentos produz a mais perversa das inversões que é a acusação de racistas ou de promotores do ódio racial lançada sobre os defensores das ações afirmativas. Como se o racismo precisasse ser inventado no Brasil", escreve. Leia a íntegra do artigo

Fantasias racialistas

 Atila Roque*

            O debate sobre a adoção de cotas para estudantes negros nos vestibulares para universidades públicas tem sofrido com argumentos falaciosos difundidos ad nauseam  pelos que se opõem à adoção dessas políticas. Com isso estamos correndo o risco de perder a oportunidade de realizar uma discussão realmente necessária sobre a eficácia das políticas afirmativas para a promoção da igualdade e da justiça social em uma sociedade historicamente marcada pelo racismo.

            Um desses argumentos produz a mais perversa das inversões que é a acusação de racistas ou de promotores do ódio racial lançada sobre os defensores das ações afirmativas. Como se o racismo precisasse ser inventado no Brasil.

            O que as políticas de cotas fazem é simplesmente reconhecer, com base em pesquisas acadêmicas e séries estatísticas produzidas ao longo das últimas décadas, que o racismo é um fator importante na trajetória de vida e na redução do leque de oportunidades disponíveis às populações de pele mais escura. Uma população que na linguagem do IBGE recebe a denominação de parda ou preta e que na vida cotidiana das pessoas assumem denominações mais diversificadas e nem sempre muito gentis: escurinhos, morenos, sararás, neguinhas. Homens e mulheres que sofrem em graus variados com os preconceitos de uma sociedade que se desejou por muito tempo européia, e não africana, e que elegeu a pele clara — e as características físicas a ela associadas, como os cabelos lisos (e sempre que possível louros), traços faciais “finos” —,  como sinais de beleza e inteligência.

            Tentar carimbar isso de “racialização” da sociedade brasileira é um exagero que se presta à exibição narcísica de saberes acadêmicos, mas que nada tem a ver com o mundo da vida. Os eventuais equívocos e erros cometidos na implementação das cotas, poucos se comparados a outras políticas sociais focalizadas, merecem ser discutidos no marco de metodologias que avaliam eficácia e eficiência das políticas públicas.

            Da mesma forma, reduzir tudo ao problema da pobreza, opondo cotas às políticas supostamente universais, é negar as conseqüências psicológicas e sociais do racismo, produzindo um falso dilema. As cotas não se opõem à valorização da escola pública ou à necessidade de investir em políticas sociais de caráter universal. Mas propõem uma aceleração do acesso de estudantes negros à educação superior. Elas representam um atalho legítimo para a constituição no curto prazo de uma elite composta de pardos, pretos, cafuzos, morenos ou qualquer definição que se queira dar a essa população de pele escura que se confronta cotidianamente com o preconceito da sociedade. O Brasil precisa de médicos, advogados e, especialmente, professores universitários negros.

            As políticas que apenas começam a ser implementadas nas universidades brasileiras adotam modelos diversos, combinam cotas sociais e raciais, e promovem a diversidade em um ambiente universitário em que pretos e pardos estiveram quase sempre ausentes. Cerca de metade das experiências vigentes em universidades públicas, segundo avaliação recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), adotam cotas raciais e sociais sobrepostas, operando, assim, com dois critérios complementares que devem ser observados simultaneamente para o preenchimento das vagas destinadas aos negros.

            Finalmente, a acusação de que os defensores de cotas são teleguiados ou inocentes úteis de fundações internacionais e plagiadores da experiência supostamente fracassada dos EUA causa assombro por ignorar deliberadamente a longa trajetória de luta dos movimentos negros no Brasil, além de apresentar uma narrativa descontextualizada do debate norte-americano. Desde os anos 1930, grupos dos movimentos negros brasileiros apontavam para a necessidade de políticas públicas que garantissem o acesso da população negra à educação e, mais recentemente, no início dos anos 1980, os cursinhos pré-vestibulares para negros e carentes passaram a sublinhar o direito à educação superior. É surpreendente ver intelectuais e acadêmicos tão ilustres subscrevendo visões tão distorcidas.

            As políticas de cotas apenas agora começam a ser avaliadas e os primeiros resultados desmentem largamente as críticas que continuam a ser repetidas sem qualquer amparo em dados. Não baixaram a qualidade da universidade, não colocaram “pobre-contra-pobre”, não beneficiaram apenas uma “elite de classe média negra”. Ao contrário, contribuíram para renovar o debate sobre o lugar da educação superior na conquista da cidadania plena e o papel das universidades públicas.

            Essa experiência exemplar não deve ser interrompida em nome de fantasias racialistas despropositadas ou, em alguns casos, da defesa de privilégios de grupos que sempre resistiram à incorporação dos negros à vida republicana.

 

* Historiador, membro do Colegiado de Gestão do Instituto de Estudos Socioeconômicos.

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Comentários (8)

Usuário Anônimo 22/08/2010 23:49
Como visto nesse artigo as cotas raciais devem realmente ser aprovadas pelo congresso definitivamente eu sou branco mas minha familia quase inteira é negra e eu vejo pelo meu irmao que é pardo o racismo existente o que provoca uma certa falta de confiança em si mesmo e uma desconsideração com os sentimentos pessoais eu tenho apenas 15 anos estou no 1 ano do ensino medio e esse foi um dos unicos artigos que encontrei na internet que é a favor das cotas raciais é no minimo porque quem é contra não conhece a verdadeira realidade do racismo contra o negro é uma pena que só alguns sites perdidos falem a favor das cotas raciais (não desconsiderando o site :P )
Usuário Anônimo 27/01/2011 16:36
chfjgklçp~´
Usuário Anônimo 27/01/2011 16:37
chfjgklçp~´
Usuário Anônimo 03/02/2011 21:32
Tudo bem. Não repetirei, como muito se tem feito, que a medida é racista. Mas não vejo como ela pode ser congregacionista. Projetando a questão para um macrocosmo, quando e como é que as implementações nos permitirão discutir a situação social de nosso país de forma polarizada? Afinal, o objetivo é ou não apagar o olhar de alteridade? Um orgulho negro e/ou um orgulho branco, para mim não são reações sociais positivas; revelam uma reterritorialização do olhar sobre o outro. Ao invés de procurarem eliminar a ideia do negro, do índio, do oriental, da mulher, do homossexual como o outro, os "orgulhos" projetam um valor sobre o outro que não endossam aquilo que ele compartilha com todos os seres-humanos: a própria condição humana. NESSE SENTIDO,CONTINUARÃO SEMPRE A SER MINORIA, é segregação? não! Mas não vai congregar!
Pois bem, posso ter entendido errado e gostaria muito de ser corrigido na ocasião.


"O Brasil precisa de médicos, advogados e, especialmente, professores universitários negros".

Definitivamente, eu não entendi o objetivo dessa afirmação. O Brasil precisa especialmente de profissionais negros para quê? Qual é a relevância profissional das condições etno-estéticas dos, sim, necessitados médicos professores e advogados.

Afinal o Brasil quer provar pra quem sua tentativa de multiculturalismo?

"Elas representam um atalho legítimo para a constituição no curto prazo de uma elite composta de pardos, pretos, cafuzos, morenos ou qualquer definição que se queira dar a essa população de pele escura que se confronta cotidianamente com o preconceito da sociedade".

Poxa, aí complica. Afinal,o foco é E-X-T-E-R-M-I-N-A-R a situação de pobreza, ou heterogeneizar etnico-esteticamente os detentores da riqueza? Me parece que estamos a eternamente retornar à necessidade de fornecer uma ajuda simulacral a alguma entidade social.

Peço desculpas pelos disparates arrogantes e falácias, mas algum coisa não tem como ser boa nesse multiculturalismo particularista de classe-dominante.
Como uma vez disse Mia Couto:
"Cada homem é uma raça".
Usuário Anônimo 03/02/2011 21:34
Quando digo polarizada, quis dizer despolarizada
Usuário Anônimo 13/02/2012 18:22
Primeiro gostaria de parabenizar a coragem do artigo, que de maneira direta expõe o que na minha opinião é a grande questão do sistema de cotas. Acredito também que essa discussão talvez nunca tome a dimensão que merece pois que pra isso aconteça, nós, os brancos, acostumados a crescer as custas da miséria, ignorância, escravidão, e muitas outras atrocidades cometidas contra os negros. ( vou usar a palavra "negro" para identificar a massa oprimida durante gerações).
O sistema de cotas é incrível por tratar essa questão de maneira limpa e direta: o sistema de cotas paga uma dívida eterna com uma raça que foi constantemente usurpada e desprovida de qualquer possibilidade de se conectar com o mundo que estava sendo criado as custas de sua própria mão de obra.
Usuário Anônimo 02/05/2012 21:52
Excelente texto !
Usuário Anônimo 13/05/2012 20:45
Parabenizo-lhe pelo seu texto que relata de forma crua e direta o problema sem deixar a complexidade do assunto de fora. Excelente texto!
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