Ir para o conteúdo. | Ir para a navegação

Ferramentas Pessoais
Seções
Você está aqui: Página Inicial Biblioteca Textos O desafio de construir um orçamento paralelo
Você está aqui: Página Inicial Biblioteca Textos O desafio de construir um orçamento paralelo

O desafio de construir um orçamento paralelo

Publicado em 08/07/2008 17:26

A oficina “Orçamento, políticas públicas e indicadores a partir de uma perspectiva de gênero e raça”, realizada pelo Inesc no dia 7 de julho, proporcionou um debate profundo sobre orçamento público e direitos humanos e deixou claro o tamanho do desafio de construir um orçamento paralelo ou orçamento dhescas (Direitos Humanos, Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais), um orçamento que pretende se orientar com base na efetivação de direitos humanos e do controle social. A oficina teve a participação de palestrantes convidadas, ligadas a instituições como o Cfemea, Ceert, Ipea, IBGE, Unifem e Secretaria Especial de Políticas para Mulheres.

Luciana Costa

 O Inesc realizou a oficina “Orçamento, políticas públicas e indicadores a partir de uma perspectiva de gênero e raça” com o objetivo de dar mais um passo na proposta de construção do orçamento Dhescas. O debate foi dividido em duas linhas centrais: a discussão de estratégias de ação para efetivamente incorporar as dimensões de raça e gênero à análise do orçamento público e a questão dos dados e indicadores fundamentais para se enxergar a realidade social, com suas desigualdades de raça e gênero.

 

Dados e indicadores de políticas públicas, apesar de imprescindíveis para o entendimento da realidade, e para uma intervenção social qualificada, são instrumentos  precários no Brasil, conforme assinalaram com unanimidade as participantes convidadas, ligadas a diferentes instituições, como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o IBGE, o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem), o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdade (Ceert), a Secretaria Especial de Políticas para Mulheres e o Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea).

 

Cida Bento, do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert)Cida Bento, da organização não-governamental Ceert, destacou que o critério para a captação de dados é prioritariamente político: “os dados são incluídos ou não politicamente”, lembrando que, durante a ditadura, os militares decidiram excluir o dado “cor” do censo simplesmente porque decretaram que não havia preconceito no país. Ela se referiu ao “baile da cor” para ressaltar que a entrada e saída de dados de raça e cor nos cadastros oficiais  do Brasil obedeceram sempre a um critério político.

 

Luana Pinheiro, da Secretaria Especial de Políticas para MulheresDe fato, são muitas as dificuldades de natureza ideológica para a obtenção de dados e indicadores, complementa Luana Pinheiro, da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres. Ela se defronta com esse tipo de problema no dia-a-dia, em seu trabalho no governo, e diz que é possível avançar, mas a “passos de formiguinha”.

 

Susana Cavenaghi, do IBGE, chamou atenção para a necessidade de padronizar a baseSuzana Cavenaghi (ENCE/IBGE) de dados nacional, o que possibilitará a comparação de dados oriundos de bancos diferentes. Ela concordou com as outras convidadas de que é grande o desafio de construir indicadores, tanto de monitoramento quanto de impacto das políticas públicas.

 

Luciana Jaccoud, do IpeaA intervenção de Luciana Jaccoud, do Ipea, foi no sentido de problematizar um outro aspecto da questão: não basta construir indicadores que retratem as desigualdades de gênero e raça, pois há fenômenos que não podem ser relacionados apenas à desigualdade, mas também à discriminação e ao racismo. Jaccoud explica que a desigualdade racial está explícita em todos os âmbitos da vida social brasileira – na saúde, educação, mercado de trabalho etc -, e que apenas se também levarmos  em conta o racismo e a discriminação será possível entender por que, mesmo em situações iguais, permanece o fenômeno da desigualdade. Assim, a questão dos indicadores torna-se ainda mais complexa.

 

Outro aspecto relevante, destacado por Suzana Cavenaghi, do IBGE, foi no sentido de que não é suficiente a etapa de construir indicadores. É necessário, além de produzir os dados, divulgar as informações, deixá-las acessíveis e, sobretudo, capacitar recursos humanos para compreender essas informações e indicadores. Ela defendeu a importância dessa capacitação para que os militantes do campo social possam manipular os dados e realizar análises políticas sem depender dos produtores de dados.

 

Suzana ressaltou a falta de indicadores diagnosticada nos relatórios que o governo elabora sobre o Plano Plurianual (PPA) e afirmou que é preciso pressão social para que o PPA funcione realmente como um instrumento de monitoramento – para isso, é preciso contar com indicadores mínimos para o acompanhamento, coisa que ainda não existe.

 

Guacira César, do CfemeaO debate rico produzido pela oficina demonstrou o quão profundo é o problema que se pretende enfrentar. O racismo e o sexismo estruturam a forma como as políticas públicas são formuladas no país, o que torna gigantesco mas não impossível o desafio que se tem pela frente. Ao discutir sobre as estratégias para incorporar à análise política as dimensões de gênero e raça, Guacira César, do Cfemea, lembrou as dificuldades para se trabalhar com o “orçamento mulher” e ressaltou: “o instrumental para trabalhar um orçamento racial é ainda bem menos desenvolvido”. 

 

Ao elaborar o orçamento mulher, o Cfemea observou que, dos 400 programas contidos no Plano Plurianual do governo federal para o período 2004/2007, apenas 13 demonstraram intenção explícita de promover a igualdade de gênero. Desses, dois ou três apenas trabalhavam a questão racial.

 

Iara PietrocovskyO tamanho do desafio indica o tamanho da luta que precisa ser empreendida. Para Iara Pietricovsky, do Colegiado de Gestão do Inesc, essa luta é ainda maior em função de uma questão que não pode ser ignorada: a questão ambiental. Segundo ela, o impacto ambiental que já estamos vivendo e que viveremos ainda mais acirradamente, com o aquecimento global, vai gerar migrações geográficas que tendem a aprofundar desigualdades. Tal fato, afirma, vai impactar fortemente os indicadores sociais e de direitos humanos, uma vez que os mais atingidos pelos processos de desertificação e aquecimento global serão os que já hoje enfrentam na pele os problemas da desigualdade e da exclusão.

Ações do documento

Comentários (0)

Apoio Institucional
  • apoio20.png
  • apoio19.png
  • apoio18.png
  • apoio17.png
  • apoio15.png
  • apoio14.png
  • apoio13.png
  • apoio12.png
  • apoio11.png
  • apoio10.png
  • apoio9.png
  • apoio8.png
  • apoio7.png
  • apoio6.png
  • apoio5.png
  • apoio4.png
  • apoio3.png
  • apoio2.png
  • apoio1.png