Articulação Latino-Americana Cultura e Política: o marco inicial
Publicado em 03/09/2008 11:11
O Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) está envolvido na construção dessa articulação desde 2007. Para Iara Pietricovsky, do Colegiado de Gestão do Inesc, duas questões devem ser consideradas pilares da Articulação Latino-Americana Cultura e Política: a afirmação dos direitos humanos e a afirmação da luta por um padrão ambientalmente sustentável. Eduardo Balán, representante da Argentina do Grupo Executivo da Articulação, apontou a democracia como uma questão que está no centro do debate. Ele entende que um dos desafios da articulação é contribuir para formar as bases de uma indústria cultural democrática, na qual todos tenham a possibilidade de produzir. Eduardo Balán é coordenador do grupo argentino de cultura comunitária El Culebron Timbal e integrante da Rede de Arte e Transformação Social.
O coordenador do Cena Contemporânea, Guilherme Reis, enalteceu a importância de somar as agendas e os esforços dos campos político e cultural para maximizar as lutas. A necessidade de se promover uma maior aproximação entre política e cultura, em suas diversas manifestações, e de levar a articulação para o maior número possível de países da América Latina marcou a maior parte das falas dos palestrantes do evento. O desafio da Articulação está em construir conexões entre as diversas manifestações e iniciativas culturais que em geral se apresentam de forma dispersa.
A professora da Universidade de Brasília Mariza Veloso salientou a importância de construir uma proposta efetiva de integração das manifestações que já existem; jamais uma proposta de unificação: “integração não é unificação, mas novas conexões entre diferentes grupos”. Para ela, a cultura não é "apenas uma reserva de valores", mas uma arena de lutas simbólicas, na qual muitos grupos vêm sendo "subalternizados", como negros/as, mulheres, índios, portadores de deficiências, homossexuais, entre outros que sofrem violências simbólicas e são invisibilizados socialmente.
Heloísa Buarque de Holanda, coordenadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ, falou sobre a cultura das favelas e destacou o rapper com um fenômeno que visibiliza a cultura das favelas. Segundo ela, estudos indicam que, mantido o ritmo atual, o aumento da favelização e do desemprego fará com que 50% da população das grandes cidades, em 2020, estejam vivendo em favelas. Hoje, informou, o Brasil tem a terceira maior população favelada do planeta, ficando atrás somente da Índia e da China.
A historiadora Wânia Sant'Anna, ativista do movimento negro, , destacou a necessidade de que a história e a memória caminhem juntas para que as manifestações culturais negras sejam valorizadas. Ela citou três manifestações da cultura negra – o samba, a capoeira e o “terreiro” (manifestações religiosas como candomblé) – que sofrem de um processo de desqualificação, desclassificação e desapropriação. A capoeira, exemplifica, já foi muito reprimida, discriminada, e hoje é um veículo de comunicação da cultura negra brasileira. “Ainda não conseguimos reinventar o signo do respeito", criticou.
O boliviano Carlos Hugo Molina, coordenador do Cepad, ressaltou a importância de reinventar a democracia e destacou a necessidade de lutar por políticas públicas que efetivem direitos humanos. Roberto Malta, coordenador da seção Brasil da Rede Cultural Mercosul, e Ney Piacentinni, da Cooperativa Paulista de Teatro, deram exemplos de manifestações culturais já em andamento, construídas na perspectiva da integração com outros países da América Latina. Malta anunciou que, para 2010, está prevista a realização do Fórum Cultural Latino-Americano, com a participação de 18 países.
A Articulação Latino-Americana Cultura e Política tem o apoio da Fundação Avina, da Oxfam Novib e da Agência das Nações Unidas para as Mulheres – Unifem. O movimento pretende realizar uma intervenção no Fórum Social Mundial de 2009, que será realizado em janeiro, em Belém, no Pará.























