A abertura do diálogo entre a cultura e política
Publicado em 02/09/2008 18:03
Uma homenagem ao ex-deputado, artista e ativista negro Abdias Nascimento marcou a abertura do Seminário da Articulação Cultura e Política realizado nos dias 1º e 2 de setembro no Museu da República, em Brasília, como parte da programação do Cena Contemporânea 2008, evento que reúne em Brasília dezenas de apresentações teatrais; espetáculos internacionais, nacionais e locais; além de shows, oficinas e lançamentos de livros e cuja programação vai até o dia 7 de setembro.
O Instituto de Estudos Socioeconômicos - Inesc está envolvido na construção dessa articulação desde 2007 e tem prevista uma intervenção para o Fórum Social Mundial de 2009 a ser realizado na cidade de Belém. Apoiado pela Fundação Avina, pela OxfamNovib e pela Agência das Nações Unidas para as Mulheres - Unifem, o primeiro evento da articulação reuniu em Brasília representantes das sociedades civis do Brasil, Argentina, Bolívia e Espanha, produtores culturais e importantes representates da academia como Heloisa Buarque de Holanda (UFRJ), a históriadora e ex-secretária de Direitos Humanos do Rio de Janeiro, Vera Sant'anna, e a professora Marisa Veloso (UnB).
A necessidade de se promover uma maior aproximação entre a cultura, em suas diversas manifestações, e a política e levar a articulação para o maior número de países possível dentro da América Latina marcou a maior parte das falas dos palestrantes do evento. "Precisamos promover a geração de agendas comuns", defendeu Iara Pietricovsky, do Colegiado de Gestão do Inesc, durante a abertura do seminário.
"Vivemos uma época de mudanças profundas, mudança de paradigmas. E no centro deste debate está o que se entende por democracia", destacou Eduardo Balan, coordenador do grupo argentino de cultura comunitária El Culebron Timbal e integrante da Rede de Arte e Transformação Social. Balan destacou que entre os desafios que se colocam para a articulação está a formação das "bases de uma indústria cultural democrática".
A históriadora Vânia Sant'anna, ativista do movimento negro, e ex-secretária de Direitos Humanos do estado do Rio de Janeiro, destacou a necessidade de que a história e a memória caminhem juntas para que manifestações culturais negras não sejam, como ela classificou, "desqualificadas, desclassificadas e desapropriadas", conforme diversas tentativas realizadas contra manifestações culturais como o samba e a capoeira; religiosas como a Umbanda e o Candomblé, entre outras. "Ainda não conseguimos reinventar o signo do respeito", disparou ela, argumentando que "a exclusão permanente é uma violação". Vânia Sant'anna disse que a população negra brasileira vive uma "situação de mal-estar perpetuado; de liberdade com exclusão". Segundo ela, não se trata exclusivamente de exclusão econômica, mas da identidade do/a negro/a. Ela explica que culturalmente, a população brasileira foi levada a imaginar os negros como um "grupo em transição", que sofreria um "embranquecimento social" e seria posteriormente dissociado de suas raizes. Lutar contra essas idéias e assegurar voz aos coletivos negros é essencial para que o aprimoramento da sociedade brasileira.
Maria Veloso, professora da Universidade de Brasília, destacou que a cultura não é "apenas uma reserva de valores" e disse que os grupos que vem sendo "subalternizados", como negros/as, mulheres, índios, portadores de deficiências, homossexuais, entre outros tantos sofrem uma violência simbólica ao serem invisibilizados socialmente.
Heloísa Buarque de Holanda apresentou dados desconcertantes. Segundo estudos e análises realizados por institutos de pesquisa, o aumento da favelização e do desemprego fará com que, a continuar neste rítmo, 50% da população das grandes cidades, em 2020, estarão vivendo em favelas. Segundo ela, o Brasil já tem a terceira maior população favelada do planeta, ficando atrás somente da Índia e da China.























