Perspectivas Históricas sobre o Desenvolvimento da América Latina
Agência Carta Maior. Texto Noam Chomsky
É a primeira vez, desde as conquistas espanholas,
500 anos atrás, que tem havido movimentos reais em direção à integração
na América do Sul. Os países permaneceram muito separados uns dos
outros. E integração está vindo a ser um pré-requisito para a
independência autêntica.
Noam Chomsky
No
final de semana dos dias 9 e 10 de dezembro, houve um encontro, em
Cochabamba, Bolívia, dos maiores líderes sul-americanos. Foi um
encontro muito importante. Um indício da sua importância é que não foi
noticiado. Excluindo a distribuição eletrônica [pelas agências] de
notícias, virtualmente não foi noticiado. Mas todo editor ficou sabendo.
Os
líderes sul-americanos concordaram em criar uma comissão de alto nível
para estudar a idéia de formar uma comunidade continental similar à
União Européia. Eram os presidentes e os enviados das principais
nações, e havia a cúpula de dois dias do que foi chamado de Comunidade
Sul-Americana de Nações, hospedada por Evo Morales, o presidente da
Bolívia, em Cochabamba. Os líderes concordaram em formar um grupo de
estudo para tratar da possibilidade de criar uma união continental e
mesmo um parlamento sul-americano. O resultado, segundo o relatório da
AP [Associated Press], deixou o febril presidente da Venezuela, Hugo
Chávez, um velho agitador da região, com um papel maior no palco
mundial, contente, mas impaciente. O relatório continua dizendo que a
discussão sobre a unidade sul-americana continuaria no final deste mês
[dezembro de 2006], quando o Mercosul, o bloco comercial sul-americano,
tem seu encontro regular, e incluirá líderes do Brasil, Argentina,
Venezuela, Paraguai e Uruguai.
Há um ponto de hostilidade na
América do Sul. É entre Peru e Venezuela. Mas o artigo aponta que
Chávez e o presidente peruano Alan Garcia aproveitaram a cúpula para
fazer as pazes, após terem trocado insultos no começo do ano [de 2006].
Esse era o único conflito real na América do Sul no momento. E parece
ter se apaziguado.
O novo presidente do Equador, Rafael Correa,
propôs uma rota comercial terrestre e fluvial ligando a Floresta
Amazônica brasileira à costa do Pacífico equatoriana, sugerindo que,
para a América do Sul, essa pode ser algo como uma alternativa ao Canal
do Panamá.
Chávez e Morales celebraram um novo projeto conjunto,
a usina de processamento de gás na região rica em gás da Bolívia. É uma
parceria da PDVSA (Petroleos de Venezuela SA, pronuncia-se "pedevesa"),
a empresa petrolífera venezuelana, com a empresa estatal de energia da
Bolívia. E a coisa vai adiante. A Venezuela é o único membro
latino-americano da Opep, e tem, como grande diferença, as maiores
reservas de petróleo comprovadas fora do Oriente Médio. Segundo algumas
medições, elas seriam comparáveis às da Arábia Saudita.
Também
houve contribuições construtivas e interessantes de Lula da Silva, o
presidente do Brasil, de Michelle Bachelet, do Chile, e outras. Tudo
isso é extremamente importante.
É a primeira vez, desde as
conquistas espanholas, 500 anos atrás, que tem havido movimentos reais
em direção à integração na América do Sul. Os países permaneceram muito
separados uns dos outros. E integração está vindo a ser um
pré-requisito para a independência autêntica. Tem havido tentativas de
independência, mas elas têm sido esmagadas, freqüentemente muito
violentamente, em parte por causa da falta de apoio regional. Por haver
pouca cooperação regional, eles podem ser combatidos um a um.
É
o que tem ocorrido desde os anos sessenta. A administração Kennedy
orquestrou um golpe no Brasil. Foi o primeiro de uma série de dominós
que caíram. Estados de segurança nacional ao estilo neonazi se
espalharam pelo hemisfério. O Chile foi um deles. Então houve as
guerras terroristas de Reagan nos anos oitenta, as quais devastaram a
América Central e o Caribe. Foi a pior praga de repressão na história
da América Latina desde as conquistas originais.
Mas a
integração põe a base para a independência potencial, e isso é de
importância extrema. A história colonial da América Latina não apenas
dividiu os países uns dos outros, ela também deixou uma divisão interna
aguda no interior dos países, de cada um, entre uma pequena elite muito
rica e uma enorme massa de pessoas empobrecidas. A correlação racial é
muito próxima. Tipicamente, a elite rica era branca, européia,
ocidentalizada; e a massa pobre da população era nativa, indígena,
negra, misturada, e assim por diante. Era uma correlação próxima, e
continua no presente.
As elites brancas, na maioria de brancos –
que dirigia os países – não era muito integrada, tinha poucas relações
com os outros países da região. Elas estavam orientadas ao ocidente.
Pode-se ver isso de todas as maneiras. Era para onde seu capital era
exportado. Era onde estavam seus lares secundários, onde os filhos iam
à universidade, onde estavam as conexões culturais. E elas tinham quase
nenhuma responsabilidade pelas próprias sociedades. Assim, há uma
divisão muito aguda.
Pode-se ver o padrão nas importações.
Importam-se sobretudo artigos de luxo. O desenvolvimento enquanto tal
era na maior parte estrangeiro. A América Latina estava muito mais
aberta ao investimento estrangeiro do que, digamos, o Leste Asiático. É
parte da razão para seus caminhos de desenvolvimento radicalmente
diferentes nas últimas duas décadas.
E, é claro, os elementos da
elite eram fortemente simpáticos aos programas neoliberais dos últimos
25 anos, os quais os enriqueceram – destruíram seus países, mas os
enriqueceram. A América Latina, mais do que qualquer outra região no
mundo, à exceção do sul da África, aderiu rigorosamente ao assim
chamado Consenso de Washington, o que levou aos programas neoliberais,
fora dos Estados Unidos, nos últimos 25 ou 30 anos. E onde eles foram
rigorosamente aplicados, quase sem exceção, eles levaram ao desastre.
Uma correlação muito marcante. Redução aguda das taxas de crescimento e
de outros índices macroeconômicos, com todos os efeitos sociais que
acompanham.
De fato, a comparação com o Leste Asiático é muito
marcante. A América Latina é, potencialmente, uma área muito mais rica.
Quer dizer, um século atrás, era dado como certo que o Brasil seria o
que era chamado de "Colosso do Sul", comparável ao Colosso do Norte. O
Haiti, hoje um dos países mais pobres do mundo, era a colônia mais rica
do mundo, uma fonte de muito da riqueza da França, hoje devastado,
primeiro pela França, depois pelos Estados Unidos. E a Venezuela –
riqueza enorme – foi tomada pelos Estados Unidos por volta de 1920,
logo no início da era do petróleo. Ela foi uma colônia inglesa, mas
Woodrow Wilson escorraçou os ingleses de lá, reconhecendo que o
controle do petróleo viria a ser importante, e apoiou um ditador cruel.
A coisa vai assim daquele momento até o presente, mais ou menos. Assim,
os recursos e o potencial sempre estiveram presentes. Muita riqueza. Em
contraste, o Leste Asiático praticamente não tem recursos, mas eles
seguiram um caminho de desenvolvimento diferente. Na América Latina, as
importações eram artigos de luxo para os ricos. No Leste Asiático eram
bens de capital para o desenvolvimento. Eles tinham programas de
desenvolvimento coordenados pelo Estado. Eles praticamente não deram
atenção ao Consenso de Washington. Controles de capital, controles
sobre a exportação de capital, sociedades bastante igualitárias –
autoritárias, às vezes bastante duras – com programas educacionais,
programas de saúde, e assim por diante. De fato, eles seguiram boa
parte dos caminhos do desenvolvimento das sociedades ricas do presente,
as quais eram radicalmente diferentes das regras que estão sendo
impostas ao Sul.
E assim foi na história. Você volta ao século
17, quando os centros comercial e industrial do mundo eram a China e a
Índia. A expectativa de vida no Japão era maior do que na Europa. A
Europa era uma espécie de posto avançado bárbaro, mas tinha vantagens,
principalmente em selvageria. Ela conquistou o mundo, impôs algo como
as regras neoliberais sobre as regiões conquistadas, e, para si mesma,
adotou um protecionismo muito alto, bastante intervenção estatal, e
assim por diante. Assim a Europa desenvolveu-se.
Os Estados
Unidos, como um caso típico, tinha as taxas de importação mais altas do
mundo, foi o país mais protecionista do mundo no período do seu grande
desenvolvimento. De fato, em um período tão tardio quanto 1950, quando
os Estados Unidos tinham literalmente a metade da riqueza do mundo,
suas taxas de importação eram mais altas do que as dos países da
América Latina hoje, aos quais se ordena que as reduzam.
Intervenção
massiva do Estado na economia. Os economistas não falam muito sobre
isto, mas a economia corrente nos Estados Unidos apóia-se muito
fortemente no setor estatal. É de onde você consegue seus computadores,
a internet, seu tráfego aéreo, a estrutura rodoviária, navios de
containeres e assim por diante, quase tudo vem do setor estatal,
incluindo fármacos, técnicas gerenciais, e assim por diante. Não
desenvolverei o tópico, mas há uma forte correlação através da
história. Tais são os métodos de desenvolvimento.
Os métodos
neoliberais criaram o terceiro mundo, e, nos últimos 30 anos, eles
levaram a desastres na América Latina e no sul da África, os locais que
aderiram mais rigorosamente a eles. Mas houve crescimento e
desenvolvimento no Leste Asiático, região que não os seguiu, seguindo,
ao invés, o modelo dos próprios países ricos atuais.
Bem, há uma
chance que isso comece a mudar. Finalmente há esforços dentro da
América do Sul – infelizmente não na América Central, a qual foi muito
devastada pelo terror dos anos 1980s, particularmente. Mas na América
do Sul encontramos, da Venezuela à Argentina, o lugar mais interessante
do mundo. Após 500 anos, há um começo de esforço para superar tais
enormes problemas. A integração que está tendo lugar é um exemplo.
Há
esforços da população indígena. Em alguns países, pela primeira vez em
séculos a população indígena está realmente começando a ter um papel
muito ativo nos seus próprios assuntos. Na Bolívia eles conseguiram
assumir o país, controlar seus recursos. Isso também está levando a uma
democratização significativa, a uma democracia real, na qual a
população participa. Assim, eles assumiram para si mesmos uma Bolívia –
é o país mais pobre da América do Sul (o Haiti é o mais pobre do
hemisfério). Houve uma eleição democrática real no ano passado, de um
tipo que você não pode imaginar nos Estados Unidos, ou na Europa, no
que diz respeito. Houve participação popular massiva, e as pessoas
souberam quais eram as questões. As questões eram claras e muito
importantes. E as pessoas não participaram apenas no dia da eleição.
Eram coisas pelas quais elas estavam lutando por anos. De fato,
Cochabamba é um símbolo disso.
* Transcrição de uma palestra
perante o Boston Meeting of Mass Global Action
(http://japanfocus.org/products/details/2298), em 15 de dezembro de
2006, publicado em Chomsky.info (http://www.chomsky.info/talks/20061215)
** Tradução de César Schirmer dos Santos
Noam Chomsky é professor de lingüistica do MIT (Massachusetts Institute of Technology).