Observatório da Cidadania em foco
Fernana Lemos de Carvalho/Ibase
No fim da década passada, a sucessão de crises financeiras
internacionais que atingiram, com grande violência, algumas das mais
bem-sucedidas economias do mundo levou o então presidente dos Estados
Unidos, Bill Clinton, a propor publicamente a necessidade de se
construir uma nova arquitetura financeira internacional. As crises
financeiras, contudo, por mais dramáticas que tenham sido, eram apenas
a ponta do iceberg do processo de liberalização financeira que avançou
rapidamente naqueles anos. Os países mais pobres não sofreram crises
financeiras, mas foram estrangulados pelo esforço de servir uma dívida
externa que mesmo o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco
Mundial acabaram por concluir que era impagável. Já os países em
desenvolvimento de renda média, que se renderam às pressões domésticas
e internacionais pela liberalização financeira, pagaram o preço da
estagnação, do atraso e da concentração da renda, mesmo quando não
passaram por crises.
A percepção de que o sistema financeiro
internacional, e suas ramificações nacionais, tinha se tornado um dos
principais nós a impedir o processo de desenvolvimento dos países
subdesenvolvidos levou à realização, pela Organização das Nações
Unidas, da Conferência Internacional sobre o Financiamento do
Desenvolvimento, em Monterrey, México, em 2002. Apesar dos seus pífios
resultados, a conferência serviu para que alguns princípios fossem
estabelecidos e que compromissos fossem assumidos, como o dos países
desenvolvidos de dedicar um mínimo de 0,7% de seu produto interno bruto
à ajuda externa – que poucos países realmente honraram.
A
calmaria que se estabeleceu no sistema financeiro internacional nestes
primeiros anos do milênio levou ao esquecimento das grandiosas chamadas
à reforma do sistema, como a de Bill Clinton. Ao contrário da retórica
do fim da década passada, os mercados financeiros continuam a promover
a exclusão, mais que o desenvolvimento. A Ajuda Oficial ao
Desenvolvimento (AOD) só alcançou os patamares prometidos no caso de
países que já o faziam antes mesmo da conferência de 2002, como os
países escandinavos. A redução da ingerência das instituições de
Bretton Woods na política doméstica dos países em desenvolvimento só
ocorreu porque, na ausência de crises de balanço de pagamentos, o FMI
não tem instrumentos para forçar a aceitação de suas políticas. Já os
países mais pobres continuam a lutar contra as restrições que continuam
a estrangulá-los.
A importância desse tema é refletida nos
estudos temáticos da edição de 2006 do Observatório da Cidadania. Dá-se
o devido destaque à transferência de recursos reais das economias em
desenvolvimento para as desenvolvidas, especialmente a norte-americana,
que vem ocorrendo ano após ano. Um problema de especial importância
tratado nesta edição refere-se ao papel exercido pelos paraísos fiscais
no arranjo financeiro internacional, que permite a fuga de capitais, o
desvio da AOD e a evasão de impostos, enfraquecendo ainda mais a
posição de países em desenvolvimento.
Além desses problemas, é
discutido ainda o déficit democrático na gestão das instituições
multilaterais – especial, mas não exclusivamente, no caso do FMI e do
Banco Mundial –, nas quais a voz de países em desenvolvimento, quando a
tem, dificilmente exerce qualquer impacto sobre as decisões tomadas. O
déficit democrático também se reflete na imposição, por governos de
países desenvolvidos e por instituições multilaterais e internacionais,
de condicionalidades, para acesso a AOD que limitam a autonomia de cada
país na escolha de suas próprias estratégias, subvertendo o exercício e
o alcance da decisão democrática nesses países.
Incapazes de
exercer o direito à autodeterminação, sociedades que muitas vezes
lutaram com grande esforço pela construção democrática acabam por
questionar se todo o sacrifício valeu a pena, quando regimes de força
acabam substituídos por formas sutis, e muito mais eficazes, de
exploração. Vale sempre lembrar que essa ingerência nos processos de
decisão dos países em desenvolvimento viola diretamente o chamado
Consenso de Monterrey, que enfatizou, precisamente, a importância da
responsabilidade de cada sociedade pelo seu próprio desenvolvimento.
Quando
se trata da sociedade brasileira, o tema não poderia ser mais
pertinente. Concluído o processo eleitoral que levou à reeleição do
presidente e renovou a Câmara de Deputados e o Senado, além dos
governos e legislaturas estaduais, abriu-se um grande debate sobre os
rumos a serem seguidos no próximo período de governo. As escolhas do
presidente em seu segundo mandato ainda são incertas. Em sua campanha
para o segundo turno, o presidente Lula adotou uma retórica mais
incisiva de mudança de rumos, com vistas especialmente a superar a
persistente estagnação da economia brasileira, expandir empregos e
distribuir a renda de modo mais durável e efetivo. Após a confirmação
de sua vitória, contudo, suas manifestações públicas se tornaram mais
ambíguas e cautelosas, endossando as políticas de seu ex-ministro da
Fazenda e reforçando a posição do presidente do Banco Central. Por
outro lado, o presidente tem se recusado a comprometer-se com demandas
apresentadas incisivamente por porta-vozes do sistema financeiro, como,
por exemplo, a reforma do sistema previdenciário.
No momento
em que este relatório é concluído, permanece a interrogação sobre os
rumos escolhidos pelo presidente e sobre os obstáculos que lhe poderão
ser impostos pelas pressões dos sistemas financeiros domésticos e
internacional, de governos de países desenvolvidos e de instituições
como o FMI e o Banco Mundial, que nunca economizaram elogios ao “bom
senso” exibido pelo presidente em seu primeiro mandato.
A
seção brasileira do Observatório inicia com o artigo de Marcos Crocco e
Fabiana Santos, mostrando como a questão do financiamento do
desenvolvimento pode influir de forma decisiva nas próprias trajetórias
de desenvolvimento possíveis para o Brasil. Com a observação de que o
sistema financeiro brasileiro é altamente concentrador de renda,
contribuindo para o agravamento das desigualdades sociais, além de
inadequado para o financiamento dos investimentos necessários ao
crescimento da economia, Marcos Crocco e Fabiana Santos mostram que sua
operação é também perversa do ponto de vista regional. A eventual
retomada do processo de desenvolvimento, perdido há décadas, dependerá,
portanto, de uma ampla reforma do sistema financeiro brasileiro, com
vistas à promoção não apenas do crescimento econômico, mas também da
distribuição de renda e riqueza, e da redução das disparidades
regionais do país.
Marcelo Paixão também explora a necessidade
de redefinição das estratégias de desenvolvimento, enfatizando a
questão racial. Em seu artigo, Paixão recupera as diversas visões,
propostas por diferentes correntes de pensamento, dos mitos e das
utopias que acompanharam a modernização da sociedade brasileira. Alerta
para as conseqüências da promoção do mito da democracia racial, que
implica a consagração de hierarquias raciais e a manutenção de
desigualdades sociais nelas enraizadas, Paixão questiona o modelo de
desenvolvimento que pode ser construído baseado nessa utopia
particular.
O artigo “Políticas públicas e agricultura
familiar, via de desenvolvimento?” apresenta os resultados de uma
avaliação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura
Familiar e de seus impactos sobre agricultores(as), suas famílias e o
desenvolvimento local e regional. Embora ainda restrita ao estado do
Paraná, essa avaliação fornece pistas a respeito das potencialidades de
um programa que surgiu como resultado de lutas e reivindicações de
trabalhadores(as) rurais e que vem sendo ampliado e aperfeiçoado. A
avaliação também ajuda a demonstrar as possibilidades de o Pronaf ser
um instrumento de promoção de um desenvolvimento mais eqüitativo no
meio rural.
Finalmente, o Observatório da Cidadania/Social
Watch volta a abordar o tema da violência urbana em artigo de Luís
Antonio Machado da Silva. Ele analisa a perversa combinação, que se
verifica no debate público atualmente, entre o problema da segurança
pública e o problema das favelas, cujo resultado é o isolamento dessas
áreas e a dissociação de seus moradores e suas moradoras do resto da
cidade, em um processo de dissolução da solidariedade social.
O
relatório anual do Observatório da Cidadania/Social Watch vem sendo
publicado desde 1996, por organizações da sociedade civil, integrantes
da rede Social Watch, presente em mais de 60 países. Seu objetivo é
monitorar os avanços na erradicação da pobreza e a promoção da eqüidade
étnica e de gênero no mundo, cobrando dos governos nacionais o
cumprimento dos compromissos assumidos internacionalmente. Como nos
anos anteriores, esta edição contém também relatórios nacionais
selecionados da edição internacional do Social Watch Report 2006, além
de dados sobre desenvolvimento social reunidos no CD-ROM que acompanha
este volume.
*Coordenadora da edição brasileira do Observatório da Cidadania/Social Watch