O trabalho das mulheres, ontem e hoje
Agência Carta Maior/Maria Betânia Ávila
Carta Maior
A criação de empregos deve se constituir em
questão central do desenvolvimento e as mulheres devem,
necessariamente, ser consideradas como sujeitos das políticas de
emprego e de capacitação profissional.
Maria Betânia Ávila
É
relacionado à luta de mulheres trabalhadoras o fato histórico que está
na origem do 8 de março, como Dia Internacional da Mulher. O que marcou
esse dia foi um episódio trágico da morte de operárias
norte-americanas, em 1857, vítimas de repressão brutal, quando
reivindicavam condições dignas de trabalho. Em 1910, no Congresso das
Mulheres Socialistas, esse dia foi promulgado como o Dia Internacional
da Mulher. Relembrar essa origem nos impulsiona a tomar a questão do
trabalho das mulheres como um ponto central do debate político sobre a
política pública no país e, em particular, no Estado de Pernambuco.
Percorrendo
a história da revolução industrial, vamos encontrar, desde o seu
início, a presença das trabalhadoras assalariadas. Vale ressaltar que a
mão-de-obra feminina foi numerosa e fundamental no desenvolvimento da
indústria têxtil, a qual esteve no centro desse processo de
transformação. Se olharmos a história do Brasil com olhos que buscam as
mulheres trabalhadoras, iremos também encontrar, entre outras
trabalhadoras, as mulheres negras que trabalharam nas casas-grande,
como amas e criadas, sujeitas, muitas vezes, à violência física e
sexual. Apesar disto, podemos perceber uma persistente negação
histórica em considerar as mulheres como parte da classe trabalhadora,
ontem e hoje.
Atualmente, a inserção das mulheres no mercado
de trabalho formal e informal se expandiu. O contingente feminino chega
a mais de 40% da força de trabalho em diversos países avançados, mas
tem sido absorvido, sobretudo, no universo do trabalho precarizado e
desvalorizado.
As análises sobre as desigualdades no mercado
de trabalho são importantes mas, só através de uma análise que
relaciona mercado de trabalho e trabalho doméstico é possível
aprofundar a compreensão da relação de desigualdade das mulheres,
sujeitas à dupla jornada na divisão sexual do trabalho. A teórica
feminista Cristina Carrasco (2001) afirma que não seria possível a
manutenção do trabalho assalariado na produção sem a sustentação do
trabalho reprodutivo, não remunerado, no âmbito doméstico.
No
Brasil, o emprego doméstico tem um peso importante no mercado de
trabalho para as mulheres, com maior peso para as mulheres negras. As
empregadas domésticas constituem uma das maiores categorias de
trabalhadoras do país: do total de empregadas/os nesse setor, 95% são
mulheres (OIT, 2006). Se juntamos a isso o fato de que são as mulheres
as responsáveis pelo trabalho doméstico da sua própria unidade
doméstica e familiar, pode-se perceber que este trabalho permanece como
um problema para as mulheres e uma dimensão estruturante das
desigualdades de gênero associadas à questão de raça e classe.
A
maioria das mulheres trabalhadoras está na informalidade. Se tomamos
nossa realidade mais próxima, segundo o DIEESE (2005), mais de 40% das
mulheres não negras ocupam postos vulneráveis de trabalho e, entre as
mulheres negras, esse contingente se eleva para mais da metade. O
trabalho informal nega, no presente, o acesso aos direitos trabalhistas
e, para o futuro, significa uma maturidade sem proteção social e renda:
no Nordeste, mais de 70% das mulheres não contribuem e, portanto, estão
mais distantes de terem acesso a uma aposentadoria ou à proteção social
asseguradas pela Previdência Social. No campo brasileiro, as mulheres
são 39% das pessoas ocupadas em atividades agrícolas não remuneradas e
42% das ocupadas na produção para o consumo (PNAD, IBGE, 2003).
É
fundamental resgatar este contexto para analisar, criticamente, a
retomada do debate sobre a questão do Desenvolvimento, tema recorrente
na fala das autoridades públicas nestes dois últimos meses, tanto no
plano federal quanto no estadual. Os novos governos anunciam políticas
e pactos de crescimento, inauguram novos empreendimentos e afirmam a
abertura de novos postos de trabalho.
Devemos, portanto,
insistir sobre duas questões. A criação de empregos deve se constituir
em questão central do desenvolvimento, aliada à garantia de direitos
trabalhistas e as mulheres devem, necessariamente, ser consideradas
como sujeitos das políticas de emprego e de capacitação profissional,
como também de acesso à terra e ao crédito, no caso das mulheres do
campo.
No Estado de Pernambuco, com este novo governo, o
movimento de mulheres teve uma grande conquista: a criação da
Secretaria Estadual de Políticas para as Mulheres. Contamos que, a
partir daí, outras conquistas virão. Uma destas conquistas exigidas,
refere-se a uma política de emprego e renda para as mulheres, que lhes
assegure autonomia econômica, e as reconheçam como sujeito na
construção de um Desenvolvimento que só poderá ser democrático se vier
para superar desigualdades e promover justiça social. Estas propostas
devem, portanto, considerar as lições da história e as razões do
presente que o dia 8 de março e a luta das mulheres seguem a
reivindicar.
(*) Com colaboração de Veronica Ferreira, supervisora de Pesquisa do SOS Corpo.
Maria Betânia Ávila é coordenadora geral do SOS Corpo.