Entre o susto e a razão
É hora de insistir na realização de um projeto nacional de longo prazo, que nos permita a coesão da sociedade brasileira nos esforços que garantam a nossa autodeterminação política. O Brasil tem uma extensão continental, o que faz da federação clamorosa necessidade. Por Mauro Santayana para Agência Carta Maior
O milênio começou com um susto, em 11 de setembro de
2001, mas, se os sustos passam, o medo costuma permanecer. O ano de
2007 se inicia com o atropelo das crises que se acumularam ao longo do
tempo. O mundo está à espera da troca de império. Embora relutantes em
deixar o mando, que dura quase um século, os Estados Unidos estão
condenados a ocupar o segundo plano. Emergem os chineses, com uma
agressiva estratégia para, inicialmente, substituir os ocidentais na
tutela colonial da África, e, depois, estender sua influência sobre a
Ásia e a América Latina. Será mais difícil seu avanço sobre a Europa,
que se organiza para manter o predomínio cultural sobre o Ocidente.
O
avanço chinês é visto com temor, tendo em vista sua imensa população.
Se a ela se somarem os habitantes dos países próximos, como é o caso do
Paquistão e a Índia, será a metade do mundo contra a outra metade.
Nesse caso, provavelmente voltaremos à bipolarização e à guerra fria,
como tem ocorrido sempre na História, ou ao desfecho bélico, quando o
equilíbrio de poder se rompe. Mas todas essas perspectivas sombrias
estão na dependência de outra, ainda mais sombria: a de que um desastre
natural (ou provocado) venha a abreviar a presença do homem em nosso
planeta. A advertência dos especialistas, acolhida pela ONU, e
divulgada na semana passada, é fundada em evidências clamorosas. Mas,
ainda mais assustadora, havia sido a advertência da própria natureza,
com os maremotos da Ásia.
Se a estridência das informações ocas,
e dos espetáculos que amortecem a razão e os sentimentos, deixassem aos
neurônios algum tempo livres para a reflexão, poderíamos fazer um
balanço positivo da nossa presença no planeta. Poderíamos, em primeiro
lugar, pensar com os astrofísicos, e ver uma fímbria do grande
mistério: a vida, tal como a conhecemos, só foi possível na Terra como
resultado de circunstâncias precisas. Se a órbita terrestre fosse um
pouco mais distante ou mais próxima do Sol, não teríamos a oportunidade
de ser e de expressar a consciência que temos do mundo. A vida natural
só foi possível aqui, e na tênue superfície terrestre, embebida dos
gases da baixa atmosfera. Todos os animais (é o que presumimos) vivem
sem essas reflexões, porque desde Aristóteles se intui que a sua
memória não pode ser suscitada voluntariamente. A reflexão – é outra
descoberta antiga – é o confronto das impressões do presente com as que
ficaram guardadas do passado. Por isso só o homem pode meditar a
natureza e, como preço dessa inteligência, ter consciência angustiante
da morte.
Temos, como espécie – que se vem reproduzindo com as
mesmas condições biológicas há milhares de séculos – uma história de
que nos orgulhar. Se é verdade que nos entrematamos, desde que há
registro das disputas pelo espaço vital, é também verdade que
conseguimos momentos de excepcional beleza, principalmente na arte. As
esculturas de Fídias e de Miguelângelo, os poemas de Hesíodo, a música
de Bach, e a poesia épica de Homero bastam para justificar a
Humanidade. Mas tudo isso pode desaparecer de um momento para o outro.
Se
as coisas do mundo assim caminham, a sua marcha condiciona os passos
brasileiros nestes próximos anos. É hora de insistir na realização de
um projeto nacional de longo prazo, que nos permita a coesão da
sociedade brasileira nos esforços que garantam a nossa autodeterminação
política. Há dois movimentos políticos no mundo que parecem opostos,
mas, no fundo, são harmônicos: a descentralização política e
administrativa e a formação de grandes blocos confederados. A União
Européia é a grande novidade histórica da Idade Moderna, e nos mostra
que só podem ser unidas as partes que se diferenciam. Se as partes não
fossem diferentes, constituiriam um universo homogêneo, e não haveria
razão nem condições para que se unissem.
Os estados europeus
se uniram em tratados de interesse comum, que os fortalecem no conjunto
mundial, mas asseguraram, nesses acordos, a autodeterminação dos
signatários e a preservação de sua identidade cultural. O Brasil tem
uma extensão continental, com diferenças históricas marcantes, o que
faz da federação, mais do que um projeto político, clamorosa
necessidade. Ao poder econômico (sobretudo o estrangeiro), sediado em
São Paulo, sempre interessou a concentração do poder administrativo,
primeiro no Rio e agora em Brasília. A burocracia centralizada sufoca
os interesses dos Estados, porque se associa ao poder econômico, a fim
de impor sua visão técnica ao resto do País.
Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.