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  <title>Artigos</title>
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      Nesta seção estão disponibilizados os artigos opinativos redigidos pelos assessores políticos do Inesc
    
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  <item rdf:about="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/leitura-da-realidade-social-das-organizacoes-de-desenvolvimento-solidario-e-da-cidadania-ativa">
    <title>Leitura da realidade social  das Organizações de Desenvolvimento Solidário e da Cidadania ativa.</title>
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    <description>Marilza de Melo Foucher aborda, em artigo, a leitura sovre a realidade política, social, cultural e ambiental das organizações de desenvolvimento solidário e da cidadania ativa. </description>
    <content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p><b>Por Marilza de Melo Foucher</b></p>
<p>Quinze dias no Rio de Janeiro foram poucos para matar saudades e visitar companheiros e companheiras que continuam teimosamente apostando que outro mundo é possível. Com eles e através deles, posso continuar minha leitura sobre a realidade política, social, cultural e ambiental do Brasil.</p>
<p>No mais, o Rio de Janeiro continua lindo... O Rio é uma cidade “sui-generis”, uma beleza que encanta e nos questiona. Do circuito do aeroporto para a zona sul, o visitante vai vendo as inúmeras favelas nas zonas periféricas, além de outras comunidades pobres com seus barracos que desordenadamente encobrem a beleza de sua geografia. Todavia, quem mora no Borel, na Rocinha, ou em outras grandes favelas, também usufruem desta beleza de paisagem que é o Rio de Janeiro, afinal ninguém pode ser privado ao acesso da beleza! Entretanto, seus moradores foram privados de outras coisas essenciais para que um ser humano possa ter uma vida digna. A própria palavra Favela já tem sua origem na rudeza dos solos, ela é uma pequena árvore de muitos espinhos, mas que dava belos cachos de flores brancas (Cnidosculus phyllacanthus). Segundo consulta, foram nesses lugares, de difíceis acessos, que se escondiam os escravos, em seguida, as populações pobres e migrantes, estes virão ocupar os morros mais próximos do centro da cidade.</p>
<p>Com o tempo, a favela vai virar sinônimo de moradia precária, de miséria, drogas e violência. Durante séculos, esses suburbanos vão viver sem qualquer infra-estrutura básica. No Rio, existe o contraste forte entre o belo de sua paisagem, a arquitetura de seus belos imóveis e a precariedade dos assentamentos, a miséria que se esconde nos seus morros favelados. Segundo fontes oficiais, cerca de 20% da sua população vivem em  favelas. Todavia, embora as condições de moradia sejam consideradas bem melhores hoje em dia, e a violência assim como tráfico de drogas, venha diminuindo com a presença das UPPs, assim como o tráfico de drogas, a falta de infra-estrutura básica como esgotos sanitários, esgotos pluviais, acesso à água potável, lixo, regularização fundiária, equipamentos públicos, tais como dispensários, outras estruturas hospitalares, escolas publicas de qualidades, continuam aquém dos resultados gerais da luta contra a exclusão social nesses últimos dez anos.</p>
<p><b>Favelas. Territórios de sonhos possíveis?</b></p>
<p>O fato mais importante das conquistas sociais que vai dar um pouco mais de humanização e melhores condições de vida nas favelas é que seus moradores, já há muitos anos vêm se organizando em associações, e que muitas ONGs de desenvolvimento solidário, anteriormente financiadas com o apoio da cooperação internacional, investiram em muitas iniciativas de educação popular, alfabetização, resgate e valorização da cultura negra, projetos destinados à população jovem, organização das mulheres, organização de economia solidaria, reivindicações de direitos e tantas outras ações de solidariedade e de cidadania. Estas organizações sociais não esperaram a realização de grandes eventos esportivos, sociais ou ambientais para agir em prol das populações carentes e por um desenvolvimento territorial solidário.</p>
<p>Para estas organizações sociais as favelas devem ser tratadas como um território que sofreu um modo de urbanização desigual e discriminatório. Todavia, nesses territórios se pode sonhar que outro mundo é possível. Nesses territórios existem identidades, diversidade cultural e muitas histórias de vida. Não existe homogeneidade nas favelas, daí a abordagem e intervenção do desenvolvimento territorial devem ser encaradas de forma diferenciada. O perfil de seus cidadãos com relação à renda, ao consumo, ao acesso aos bens produtivos não é o mesmo, assim como, as regras e práticas de sociabilidade são distintas. Daí qualquer iniciativa governamental deve ser levada de forma participativa com os atores locais, com as Organizações de Desenvolvimento Solidário e da Cidadania. Estes atores, não podem ser transformados em simples executores de políticas públicas, eles devem ser co-partícipes de um novo modo de intervir na realidade local.</p>
<p>Mesmo considerando o avanço de políticas de inclusão social durante os governos de Lula e Dilma, a definição de prioridades deve levar em conta as experiências e saberes acumulados dessas organizações sociais, tendo em vista, que elas já atuam há muitos anos nesses territórios. Territórios, até em tão, considerados zonas dos não direitos.</p>
<p><b>Ações e Desafios.</b></p>
<p>A articulação entre o governo e as organizações da sociedade civil permite maior vitalidade da democracia, ao mesmo tempo, responsabiliza os atores locais no fortalecimento da pratica do exercício da cidadania. Infelizmente, o termo ONG atualmente é completamente deturpado, pois a grande mídia forjou opiniões negativas destas organizações históricas, que há mais de 40 anos atuam junto aos excluídos, tanto na zona urbana como na zona rural. Ultimamente, essas organizações de desenvolvimento e de construção da cidadania que atuam visando o interesse público são confundidas com outras associações que não possuem as mesmas características e nem têm a mesma missão. Falo das OSCIPs, que foram criadas no governo de Fernando Henrique, pela lei de nº 9.790 - 23 março de 1999. Esta lei traz a possibilidade das pessoas jurídicas (grupos de pessoas ou profissionais) de direito privado sem fins lucrativos serem qualificadas, pelo Poder Público, como Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público - OSCIPs. E desta forma elas podem relacionar-se por meio de parceria com o Governo, desde que os seus objetivos sociais e as normas estatutárias atendam os requisitos da lei. Essas associações, fundações que se dizem ONGs, hoje são 300.000, muitas foram criadas por grupos políticos que se beneficiam de subvenção publica, porém abusam do poder publico utilizando estes recursos para outras finalidades que não são de interesse coletivo, inclusive, muitos de seus fundadores foram acusados de enriquecimento pessoal e outros atos de corrupção caracterizados pelo desvio e uso indevido de financiamento público. Quanto às organizações históricas que sempre praticaram o desenvolvimento solidário e abriram espaços para o exercício da cidadania ativa elas eram 380 e hoje o número baixou para a metade.</p>
<p>O mundo associativo que se caracteriza como ONGs de desenvolvimento solidário e cidadania ativa necessita urgentemente de diretrizes e normas, que legalizem e lhes dêem segurança jurídica. É urgente modificar a legislação fiscal abrindo uma oportunidade para os brasileiros (de maior posse) de ter um aprendizado da solidariedade nacional, onde cada cidadão (ã) possa doar dinheiro para esse tipo de organizações (ODSC) a fim de garantir o investimento maior no desenvolvimento solidário e na construção de uma verdadeira cidadania. Isto contribuiria para ajudar o Brasil a construir um projeto de sociedade mais justo. Os doadores poderiam ter abatimento fiscal na declaração do imposto de renda, como existe, por exemplo, na França e em outros países europeus. Se eu dôo 100 Reais para uma organização, esta soma pode ser deduzida em 60% do imposto de renda. Além disso, posso exercer meu controle social acompanhando o andamento das atividades da organização do qual deposito confiança.</p>
<p>Devo acreditar que a Presidente Dilma tem confiança nessas organizações históricas e não vai continuar permitindo certos amálgamas que desacreditam suas ações junto à opinião publica. A sobrevivência destas organizações sociais é necessária, as atividades, os projetos que elas desenvolvem são compatíveis com o projeto de construção de um país sem misérias. Os dez anos de governo Lula e Dilma vêm se desenhando a nova cara do Brasil, sem duvida nenhuma, graças à ação de pressão da sociedade civil organizada.</p>
<p><b>Resgate do papel histórico.</b></p>
<p>Não podemos esquecer que essas organizações de desenvolvimento solidário participaram ativamente na elaboração da nova Constituição brasileira, elas foram propositivas, por esta razão vale à pena recorrer à memória de muitas temáticas que foram bandeiras de luta, algumas delas foram inseridas em agendas governamentais, tais como: democracia participativa, orçamento participativo nas prefeituras, conferências das cidades, fóruns sociais, reforma urbana, reforma agrária, agro-ecologia, questão de gênero, articulação da água, lixo seletivo, desenvolvimento com sustentabilidade, reconhecimento da causa indígena, das populações negras, democratização dos meios de comunicação, ética na política, sem contar com as campanhas como a da luta contra a fome e tantas outras temáticas, algumas transformadas em políticas públicas. Quantos anos de luta por um desenvolvimento brasileiro que seja compatível culturalmente, socialmente, ambientalmente!</p>
<p>Aos poucos, o país caminha por um mundo melhor, mas o combate continua, tendo em vista, que o Brasil ainda vive confrontado com muitos problemas: Falta e manutenção de infra estrutura básica, estradas, portos, rede de esgotos pluviais e sanitários, acesso à água potável, tratamento de águas usadas, pavimentação de ruas e construção de calçadas, extensão e renovação da rede elétrica, extensão dos meios de telecomunicação (banda larga inclusive), construção de sinalizações com acostamento nas rodovias, autopistas dentro das normas internacionais de segurança; despoluição de rios, reflorestamento de zonas  degradadas, descontaminação de solos, construção e reformas de escolas, hospitais, equipamentos hospitalares etc, etc. Existem tantas urgências para que o Brasil seja considerado um país desenvolvido, e não somente uma potência mundial econômica, que os recursos alocados pelo Estado devem ser mais bem utilizados, melhor priorizados e melhor compartilhados. Para investir num projeto global de sociedade com outra concepção de desenvolvimento, o governo federal necessita consolidar parcerias com organizações sociais comprometidas com a educação política da cidadania e capazes de elaborar projetos de forma articulada com todos os setores, dentro de uma visão integrada e solidaria do desenvolvimento territorial.</p>
<p>Desde 2006, as pequenas e micros empresas foram beneficiados com novas modalidades para as licitações de pequenos valores. É um grande avanço, mas seria ótimo que as   autoridades responsáveis pudessem realizar um trabalho urgente em diferentes favelas, por exemplo, no Rio de Janeiro para verificar as dificuldades e a falta de formação desses pequenos atores locais para que eles entendam a formalidade do mundo do trabalho e o funcionamento da economia formal. A informalidade permeia as relações sócio-econômicas nas favelas. Como ajudar, por exemplo, a rede de economia solidaria presente nessas favelas, a ter melhor organização? Como favorecer a economia local, se estas pequenas e micro empresas não possuem notas fiscais? Mudar a lei de licitação é uma coisa, capacitar os funcionários para entender, explicar o cumprimento da lei já é outra exigência. Talvez os editais / convites / convênios / contratos entre os governos e ONGs de desenvolvimento poderiam ter maior flexibilidade e quem sabe mais adaptado à realidade local.</p>
<p>Será tão difícil para o Estado equacionar este problema que já vem durando desde o primeiro mandato do governo Lula? Por que tanto tempo? Elaborar uma legislação mais especifica capaz de nortear uma legislação mais pragmática em que os termos de compromissos sejam mais bem precisos e os contratos/convênios mais flexíveis parece não ser tão complexo. Um governo que tanto enalteceu a participação popular não pode inviabilizar a participação de ODSC- Organização de Desenvolvimento Solidário e da Cidadania. Não se deve esquecer que elas foram protagonistas de uma visão integrada e solidaria do desenvolvimento e na formação da cidadania política no Brasil. Daí uma parceria estreita com o mundo associativo comprometido é necessária. A alta administração federal deve adaptar seus critérios de qualidade na gestão de logística publica. A burocracia nasceu como suporte de boa administração do Estado e não para dificultar a gestão publica.</p>
<p> </p>
<p>Vale à pena valorizar este capital social acumulado ao longo da historia da democratização do país, por essas organizações sociais. Trata-se de um aprendizado que pode ser socializado com alguns agentes do governo que não têm a mesma formação acadêmica e política para este tipo de pratica social junto aos excluídos do progresso econômico brasileiro. Sinceramente, nada disso é de ordem do bla bla bla. Intelectual de uma eterna militante da utopia do possível (como me caracterizo) posso testemunhar sobre esta historia do mundo associativo brasileiro, pois trabalhei muitos anos na cooperação internacional. Escrevo aqui apenas como um grito de alerta.</p>
<p><b>Conclusão: autonomia crítica</b></p>
<p>As organizações sociais, que tiveram um papel relevante no processo de democratização do Brasil e que participaram de muitas conquistas sociais, vivem hoje uma crise econômica e de reconhecimento social sem precedente. Primeiro, pelo fato de o Brasil ser hoje considerado um pais rico; segundo a imagem positiva do governo Lula na luta contra a miséria e pelo seu programa de inclusão social tiveram repercussão internacional importante e mudou a imagem do Brasil. Estes dois fatores levaram os organismos da cooperação internacional a retirar sua ajuda às ONGs de desenvolvimento. Os 35 milhões que saíram da pobreza extrema estão muito longe do pleno acesso aos seus direitos e de uma atuação cidadã digna desse nome. É extraordinário o que foi feito nesses 10 anos, mas isso apenas arranhou a superfície de uma desigualdade histórica que continua a ser escandalosa.</p>
<p>Mas existe um terceiro fator considerado grave, é que uma grande parte da opinião publica desconhece o papel importante dessas organizações. A grande mídia moldou uma imagem negativa, ao colocar no mesmo saco as organizações de desenvolvimento solidário e cidadania com as associações e fundações que desviaram dinheiro público em beneficio próprio e não em beneficio do interesse coletivo.</p>
<p>Essas ONGs históricas e comprometidas com a luta contra a miséria e pela dignidade humana passaram a depender dos recursos dos governos municipais, estaduais e federal, mas não se enquadram em um marco jurídico que levem em conta suas especificidades e originalidade na forma de intervir localmente. Muitas foram obrigadas a demitir parte de seus quadros, de se desfazer do patrimônio imobiliário adquirido com a ajuda internacional. Muitas atividades e projetos foram interrompidos. Apesar do avanço na luta contra a exclusão, o território brasileiro continua convivendo com desigualdades e desequilíbrios regionais.</p>
<p>O governo Lula prometeu estabelecer um marco regulatório para essas entidades, mas depois de dois mandatos nada tinha sido resolvido. Agora é a vez da Presidente Dilma tentar resolver as aberrações jurídicas e dar oportunidades a esses atores de continuarem atuando junto às populações carentes e sair deste imbróglio jurídico. Como continuar uma associação não governamental, se muitas passam a ser executoras de políticas publicas?  A própria Constituição Brasileira garante a liberdade e independência das associações no artigo 5 do parágrafo XVIII. (ver constituição).</p>
<p>Os cidadãos que integram uma Organização de Desenvolvimento solidário e de Cidadania têm direito a usufruir ao acesso de fontes de financiamento público, e de guarda, ao mesmo tempo, sua liberdade de atuação critica, no sentido de garantir o exercício da cidadania política. Os cidadãos são guardiões do bom funcionamento democrático das instituições republicanas e estes, enquanto contribuintes pagam impostos e taxas que mantém os serviços públicos. Se certas medidas assumidas pelo governo são contraditórias à sua visão de desenvolvimento territorial solidário, estes cidadãos estão no seu direito de tecer criticas construtivas. Ser um aliado do governo na luta por um desenvolvimento com inclusão social, não quer dizer ser instrumentalizado. Uma democracia sem a vitalidade dos movimentos sociais e da sociedade civil organizada é uma democracia amorfa e seus cidadãos vão continuar elegendo deputados, senadores, governadores, prefeitos, vereadores que nunca serão dignos da casa do povo.  Governar para o povo e com o povo soará sempre como demagogia e não como principio da democracia.</p>
<p>A presidente Dilma que possui uma visão política dos atores sociais no Brasil, sabe o quanto é necessário, às vezes, ter contra-poderes em sociedades conservadoras, principalmente numa jovem democracia não muito acostumada com a democratização dos poderes, infelizmente, ainda existem saudosistas da ditadura no Brasil. Para fazer evoluir a sociedade e para poder avançar nas reformas estruturais que espera fazer do Brasil uma grande Nação, a ação militante na luta por outro desenvolvimento continua sendo fundamental. Assim como é necessário uma pratica maior do exercício da cidadania para consolidar a democracia social, parceira ideal para o funcionamento da democracia representativa. O governo por enquanto não tem uma maioria politicamente coerente, ela é mais fisiológica que ideológica. Por isso, também, o governo precisa de uma sociedade civil mais combativa.</p>
<p><i>Marilza de Melo Foucher, especializada em questões de desenvolvimento territorial, é doutora em economia, analista política,  escreve para o Jornal Mediapart em Paris colabora com vários sites de informações na América latina, com o Le Monde diplomático do Brasil, Outras Palavras, Correio do Brasil, Adital. </i></p>
<p> </p>]]></content:encoded>
    <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
    <dc:creator>inesc</dc:creator>
    <dc:rights></dc:rights>
    <dc:date>2013-04-18T14:23:22Z</dc:date>
    <dc:type>Notícia</dc:type>
  </item>


  <item rdf:about="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/um-relato-sobre-o-forum-social-mundial-2013-na-tunisia">
    <title>Um relato sobre o Fórum Social Mundial 2013 na Tunísia</title>
    <link>http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/um-relato-sobre-o-forum-social-mundial-2013-na-tunisia</link>
    <description>Diana Orrico, da Rebrip, fala, em artigo, sobre o Fórum Social Mundial, que foi sediado na Tunísia. Ela aborda o significado da escolha do país, a cultura do local e traz um retrato das discussões que foram realizadas durante o Fórum. </description>
    <content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p>O Fórum Social Mundial 2013 aconteceu na última semana de março na Tunísia, dois anos depois que a Primavera Árabe começou nesse pequeno país do norte da África, aproximando o movimento global anti-capitalista das lutas revolucionárias da região. Apesar das apreensões com o clima político instável pouco mais de um mês depois do assassinato do líder do Movimento dos Patriotas Democratas e da coligação Frente Popular, Chokri Belaïd, e em um país ainda em processo de profunda transformação, do ponto de vista organizativo o FSM foi exitoso, com algumas poucas dificuldades – que perto dos problemas de infra-estrutura de Dakar ou Belém não merecem menção.</p>
<p>Internet sem fio livre em todo o campus, restaurante universitário bom e barato, ônibus barato levando as pessoas do Fórum até o centro... quem foi às edições de Porto Alegre nunca viu algo assim.</p>
<p>Tunis surpreende e não cabe em lugares-comuns. Mulheres vestidas de maneira ocidentalizada convivem lado a lado com mulheres cobertas por véus negros. Um sistema de tram um pouco depredado, mas barato e eficiente, cobre toda a cidade de 2 milhões e meio de habitantes. Táxis em abundância podem resultar em uma conversa simpática sobre a situação política do país e os jogadores de futebol brasileiros ou em uma disputa desagradável pelo preço. Na minha condição de mulher claramente estrangeira, passei por situações desconfortáveis em momentos que estava desacompanhada fora do campus, mas na maioria das vezes contei com a gentileza local e a vontade de todas e todos em falar sobre o processo revolucionário em curso.</p>
<p>Em conversas assim, aprendemos que a queda de Ben Ali não representou a tomada do poder pelas forças revolucionárias, mas sim a transição de uma ditadura militar para uma ditadura civil de forte cunho islâmico, em muitos sentidos mais agressiva que a anterior e que tem gerado apreensões quanto à situação das mulheres do país. Mas as pessoas vivem em um misto de medo e de esperança de mudança. As “músicas da revolução” – referentes da mística da Primavera Árabe – foram cantadas catarticamente  pela multidão presente na Assembleia dos Movimentos Sociais no final do Fórum. Também em festas se dança e canta ao som destas. A principal praça da cidade teve seu nome mudado para 14 janvier 2011, data marco do processo atual. A revolução não é algo que já foi, é algo que está sendo, segue viva.</p>
<p>As lutas dos povos da região como a do povo Palestino contra a ocupação israelense criminosa e a solidariedade de todas e todos com xs palestinxs foram constantemente expressas. O embate entre os povos do Saara Ocidental que lutam pela autonomia em relação ao resto do Marrocos e xs nacionalistas marroquinos gerou fortes tensões enquanto se leía a declaração final da Assembleia dos movimentos sociais. Conflitos entre os apoiadores do ditador sírio Assad e dos apoiadores das forças de resistência também geraram situações de violência no campus.</p>
<p>Se por um lado sentimos falta de maior presença dos povos da região em algumas atividades, em outros espaços eles estiveram absolutamente no centro: importante mencionar a Assembleia das mulheres que abriu o Fórum expressando a força das mulheres da região e seu papel na Primavera Árabe.</p>
<p>Inaceitável foi o fato da organização local exigir crachás para entrada no campus, elitizando o acesso da população local, o que felizmente não conteve a entrada das pessoas. No entanto, isso gerou acusações por parte de alguns locais – com especial apoio dos “ocupa” e “indignados” presentes – de que este seria um “Forum du capital”.  Isso, associado ao fato já recorrente da presença ostensiva de algumas empresas transnacionais no Fórum, impõem a necessidade urgente de reafirmar princípios claros, rejeitando a mercantilização do espaço que deve ser acima de tudo de autonomia dos movimentos sociais, território livre de transnacionais, e com participação não mediada monetariamente. O Fórum não deixa de ser um espaço contraditório e em disputa, embora ainda centralmente um espaço de construção coletiva anti-sistêmica.</p>
<p>Este foi também o primeiro FSM com presença dos movimentos “ocupa” europeus e americanos (incluindo os “indignados” espanhóis), que emergiram no contexto da crise com forte referencia nas lutas árabes, especialmente na praça Tahir egípcia. Com um forte enfoque em metodologias “horizontais”, estes “novos” movimentos fizeram assembleias ao ar livre para discutir o Fórum. Em diversas atividades do Fórum, alguns “ocupa” interviram com críticas às metodologias “engessadas” das sessões dos movimentos “tradicionais” que não conduziriam a fóruns abertos de construção coletiva. Muitos desafios que estes “novos” movimentos propõem devem gerar efetiva reflexão e nos fazer repensar criticamente como nos organizamos. Por outro lado, os “ocupa” têm sido pouco abertos a reconhecer a história de lutas dos movimentos organizados que os precederam e que continuam sendo as plataformas das lutas mais expressivas, ao menos no Sul global. Com uma certa obsessão pela “horizontalidade” – que podem gerar discussões longas até se alcançar consenso sobre as questões organizativas mais simples, desmobilizando a energia dos participantes – os “ocupa” encontram limites claros na falta de vontade de abrir mão de expressar sempre posições políticas individuais em prol de bandeiras coletivas. De certa forma, representam uma reemergência do anarquismo no Norte global e ainda se mantêm muito restrito às classes médias que têm acesso às novas tecnologias, recurso fundamental em suas lutas. Neste sentido, os movimentos “tradicionais” organizados que resistem por anos têm muito a ensinar a esses movimentos, que têm se diluído em apenas pouco mais de dois anos de vida. Acima de tudo, é necessário um aprendizado mútuo e a construção de fortes alianças, afinal para construir alternativas necessitamos das diversidades das lutas anti-capitalistas existentes no mundo.</p>
<p>O Fórum Social Mundial 2013 em Tunis foi um êxito por expressar tão enfaticamente essas reflexões e por fortalecer os laços entre os movimentos da região e os movimentos mais “globalizados”. E isso em um contexto onde se debate mais do que nunca o futuro (ou não) do Fórum é ainda mais relevante. Ainda temos que ser mais efetivos em partir do diálogo para ações e mobilizações comuns, apesar das tentativas da Assembleia dos Movimentos Sociais nesse sentido. Mas arrisco a dizer que quem foi a Tunis partiu nostálgicx com a sensação de ter participado de um momento histórico na construção de convergências de lutas. Vive la Tunisie!!</p>
<p>Diana Orrico, da Rebrip</p>]]></content:encoded>
    <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
    <dc:creator>inesc</dc:creator>
    <dc:rights></dc:rights>
    <dc:date>2013-04-08T14:50:00Z</dc:date>
    <dc:type>Notícia</dc:type>
  </item>


  <item rdf:about="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/de-um-lado-a-esperanca-do-outro-lado-o-medo">
    <title>De um lado, a esperança; do outro lado, o medo</title>
    <link>http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/de-um-lado-a-esperanca-do-outro-lado-o-medo</link>
    <description></description>
    <content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p><span>
<p><b>por Immanuel Wallerstein</b><br /> <b>do <a href="http://www.outraspalavras.net/2013/04/03/forum-social-mundial-entre-esperanca-e-medo/">Outras             Palavras</a></b></p>
<p>O Fórum Social Mundial (FSM), que acaba de encerrar sua edição         atualmente bienal, aconteceu este ano em Túnis. Foi vastamente         ignorado pela imprensa mundial <i>mainstream</i>. Muitos de         seus participantes eram céticos que falavam de sua irrelevância,         algo que acontece a cada encontro desde sua segunda edição, em         2002. Foi marcado por debates sobre sua própria estrutura e         esteve repleto de polêmicas sobre qual a estratégia política         correta para o mundo da esquerda. Apesar disso, foi um enorme         sucesso.</p>
<p>Uma maneira de medir seu êxito é relembrar o que ocorreu no         último dia do último FSM, em Dakar, em 2011. Neste dia, Hosni         Mubarak foi forçado a abandonar a presidência do Egito. Todos no         Fórum aplaudiram. Mas muitos disseram que esse ato em si provava         a irrelevância do encontro. Algum dos revolucionários na Tunísia         ou no Egito buscou inspiração no evento? Eles ao menos tinha         ouvido falar sobre o Fórum Social Mundial?</p>
<p>Mas, dois anos depois, o Fórum reuniu-se em Túnis, a convite         dos próprios grupos que iniciaram a revolução na Tunísia.         Parecem ter considerado que sediá-lo em sua capital ampliaria a         força de sua luta para preservar as conquistas da revolução,         contra as forças que, acreditam, estão agindo para domá-la, e         levar ao poder novamente um governo opressivo e anti-secular.</p>
<p>O slogan de longa data do FSM é “outro mundo é possível”. Os         tunisianos insistiram em adicionar um novo, exibido com igual         proeminência no encontro. A palavra era “Dignidade” — nos         crachás de todos, em sete línguas. De muitas maneiras, o slogan         adicional enfatiza o elemento essencial que une as organizações         e indivíduos presentes no Fórum — a busca por igualdade         verdadeira, que respeita e aumenta a dignidade de todos, em         todos os lugares.</p>
<p>Não significa que houve total acordo no Fórum. Longe disso! Uma         maneira de analisar as diferenças é observá-las como reflexo do         contraste entre a ênfase na esperança e a ênfase no medo. Em sua         composição, o FSM tem sido sempre uma grande e inclusiva arena         de participantes, que situam-se desde a extrema esquerda até o         centro-esquerda. Para alguns, isso tem sido sua força,         permitindo educação recíproca entre pessoas e organizações         ligadas diversas tendências, ou com foco em distintos temas —         uma educação mútua que levaria a médio prazo a unir ações, para         transformar nosso sistema capitalista existente. Para outros,         isso parece ser o caminho da cooptação por aqueles que desejam         meramente atenuar as desigualdades existentes, sem fazer nenhuma         mudança fundamental. Esperança versus medo.</p>
<p>Outra fonte de constante discussão foi o papel dos partidos         políticos de esquerda no processo de transformação. Para alguns,         não é possível fazer mudanças significativas, tanto em curto         quanto em médio prazos, sem partidos de esquerda no poder. E uma         vez no poder, essas pessoas sentem que é essencial mantê-los lá.         Outros resistem a essa ideia. Sentem que, mesmo se ajudarem tais         partidos a chegarem ao poder, os movimentos sociais devem         permanecer de fora, como controle crítico destes partidos, que         com a prática quase certamente descumprirão suas promeessas.         Mais uma vez, esperança versus medo.</p>
<p>A atitude a adotar diante dos novos países emergentes — os         chamados BRICS e outros — é outra fonte de divisão. Para alguns,         os BRICS representam uma importante contra-força ao norte         clássico — Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão. Para         outros, eles levantam suspeitas sobre um novo grupo de poderes         imperialistas. O papel da China na Ásia, África e América Latina         hoje é particularmente controverso. Esperança versus medo.</p>
<p>O estado concreto da esquerda mundial é outra fonte de debate         interno. Para alguns, o FSM tem sido bom na negação — oposição         ao imperialismo e neoliberalismo. Mas está, lamentavelmente,         atrasado na formulação de alternativas específicas. Essas         pessoas clamam pelo desenvolvimento de objetivos programáticos         concretos para a esquerda mundial. Mas para outros, a tentativa         de fazê-lo serviria primariamente para dividir e enfraquecer as         forças unidas no Fórum. Esperança versus medo.</p>
<p>Outra discussão constante é sobre o que tem sido chamada de         “descolonização” do FSM. Para alguns, ele está exageradamente,         desde seu início, em mãos de gente do mundo pan-Europeu: de         homens, pessoas mais velhas, das chamadas populações         privilegiadas do mundo. O Fórum tem, como organização, buscado         estender-se além de sua base inicial — espalhando-se         geograficamente, procurando fazer suas estruturas refletirem         cada vez mais demandas a partir da base. Isso tem sido um         esforço contínuo, e ao comparar cada edição sucessiva do Fórum,         percebe-se que ele tem se tornando, neste aspecto, cada vez mais         inclusivo. A presença em Túnis de todos os tipos de “novas”         organizações — Occupy, Indignados etc — é prova disso. Para         outros, este objetivo está longe de ser alcançado, a ponto de         produzir dúvidas sobre se há uma real intenção de cumprir este         objetivo. Esperança versus medo.</p>
<p>O FSM fundou um espaço de resistência. Doze anos depois,         permanece o único lugar onde todas partes destes debates         reúnem-se para continuar a discussão. Existem pessoas que estão         cansadas dos mesmos debates contínuos? Sim, é claro. Mas também         parece sempre haver novas pessoas e grupos chegando, que buscam         participar e contribuir para a construção de um mundo de         esquerda eficaz. O Fórum Social Mundial está vivo e está bem.</p>
</span><br /> <br /> <a class="moz-txt-link-freetext" href="http://www.canalibase.org.br/fsm-entre-a-esperanca-e-o-medo/">http://www.canalibase.org.br/fsm-entre-a-esperanca-e-o-medo/</a></p>]]></content:encoded>
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    <dc:date>2013-04-05T13:31:13Z</dc:date>
    <dc:type>Notícia</dc:type>
  </item>


  <item rdf:about="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/conselhos-e-conferencias-como-ocorre-o-monitoramento-de-suas-propostas">
    <title>Conselhos e conferências: como ocorre o monitoramento de suas propostas?</title>
    <link>http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/conselhos-e-conferencias-como-ocorre-o-monitoramento-de-suas-propostas</link>
    <description>Por Ana Claudia Chaves Teixeira
Clóvis Henrique Leite de Souza
Paula Pompeu Fiuza de Lima 
</description>
    <content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p>Confira o <a href="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/textos/conselhos-e-conferencias-como-ocorre-o-monitoramento-de-suas-propostas/" class="external-link">PDF.</a></p>]]></content:encoded>
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    <dc:date>2013-03-25T15:19:23Z</dc:date>
    <dc:type>Notícia</dc:type>
  </item>


  <item rdf:about="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/o-deboche-a-palhacada-e-o-jogo-de-interesses-a-camara-dos-deputados-e-os-direitos-humanos-uma-analise-critica">
    <title>O Deboche, a Palhaçada e o Jogo de Interesses - a Câmara dos Deputados e os Direitos Humanos: uma análise crítica</title>
    <link>http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/o-deboche-a-palhacada-e-o-jogo-de-interesses-a-camara-dos-deputados-e-os-direitos-humanos-uma-analise-critica</link>
    <description>Por Toni Reis - doutor em educação e mestre em filosofia. Diretor-executivo do Grupo Dignidade e do Instituto Brasileiro de Diversidade Sexual. Secretário de educação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT).</description>
    <content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p>Publicado originalmente em <a class="external-link" href="http://www.abglt.org.br/port/basecoluna.php?cod=285">ABGLT</a>.</p>
<p>Testemunhei pessoalmente o troca-troca na Câmara dos Deputados na semana  passada (6 e 7 de março) para eleger o presidente e indicar integrantes  da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, criada há 18 anos para  institucionalizar a luta pela igualdade e contra a discriminação. Foi  escandaloso, vergonhoso e inaceitável. Vi com meus próprios olhos a  manipulação e o jogo de interesses. Vi o machismo e autoritarismo  desrespeitosos do líder do PSC para com a deputada Antônia Lúcia  (PSC/AC). Tive a infelicidade de ouvir Jair Bolsanaro (PP/RJ) falar que  foi o melhor presente de aniversário e natal que já teve de todos os  tempos. <br /> <br /> Oito deputados do mesmo partido numa só Comissão não é coincidência, é  trampa, e a maioria é ligada ao fundamentalismo religioso evangélico. Ao  total, agora 13 dos 18 titulares da Comissão são pastores. Estuprar a  proporcionalidade da representação partidária na Comissão está  equivocado e fere o Regimento Interno da Câmara: as Comissões devem ser  plurais. <br /> <br /> Com essa eleição, a Câmara dos Deputados rasgou a Constituição Federal e  a Declaração Universal  dos Direitos Humanos. Tornou-se, mais uma vez,  uma vergonha para o Brasil e para o mundo. O Parlamento Brasileiro  retornou à idade das trevas. É preciso que os(as) parlamentares  relembrem e ajam de acordo com o princípio (e a lei) de que o Brasil é  um Estado Laico. Com a ascendência do fundamentalismo religioso no  Congresso Nacional, assiste-se a um espetáculo que relembra o surgimento  da tomada do poder pelos nazistas na Alemanha dos anos 1930. <br /> <br /> O episódio foi especialmente vergonhoso pela conivência do PMDB, PSDB,  PR, PTB e PP em cederem vagas na Comissão para o PSC, além da incabível  indicação de Jair Bolsonaro (PP/RJ) para integrá-la, bem como o PSB, o  PSD e o PV indicando pastores em detrimento de pessoas historicamente  atuantes no campo dos direitos humanos. <br /> <br /> As origens de alguns desses partidos simbolizam a luta pela democracia e  o rechaço ao autoritarismo no Brasil da Abertura. Quem diria?! Das 20  Comissões Permanentes da Câmara dos Deputados, a de Direitos Humanos foi  a penúltima a ser escolhida, mostrando uma falta de prioridade  generalizada. <br /> <br /> Não é de se surpreender a estimativa de que uma pessoa é assassinada a  cada 10 minutos no Brasil (Instituto Sangari, 2011) e que em 2011,  segundo o UNODC, o país estava em primeiro lugar no ranking do mundo  neste quesito. O exemplo vem de cima, o Congresso Nacional não está  preocupado com os direitos humanos e as consequências que este descaso  traz. <br /> <br /> Decepcionou também a falta de prioridade dada pelo PT e pelo PCdoB. Uma  pergunta que ficou no ar é por que o PT priorizou a Comissão de Relações  Exteriores e Defesa Nacional em detrimento da Comissão de Direitos  Humanos e Minorias?<br /> <br /> Repetiu-se mais uma vez a imperdoável  negociação dos direitos humanos  em troca de interesses políticos e do projeto de manutenção do poder, o  que – no caso da população LGBT, negra, mulheres, indígenas – tem se  tornado corriqueiro na atual legislatura.  Estamos cansados(as) de ser  moeda de troca. <br /> <br /> É uma aberração eleger para presidir a Comissão de Direitos Humanos e  Minorias uma pessoa que é objeto de inquérito no Supremo Tribunal  Federal, acusada de estelionato, racismo e homofobia.<br /> <br /> Não faltam exemplos nas redes sociais comprovando algumas dessas  alegações contra o Pastor Marco Feliciano (PSC/SP), eleito presidente da  Comissão em 07 de março: <br /> <br /> •	Em 30 de março de 2011 afirmou  em sua página no Twitter, que os  africanos são descendentes de um "ancestral amaldiçoado por Noé" e que  "sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo,  misérias, doenças oriundas de lá: ebola, Aids, fome...”;<br /> <br /> •	no seguinte link   http://portugues.christianpost.com/news/marco-feliciano-denuncia-o-ativismo-gay-conexoes-com-hitler-e-a-aids-video-12838/  <br /> consta vídeo no qual afirmou que “A Aids é uma doença gay”; que existe  um ativismo gay promovido por satanás que está “infiltrado” no governo  brasileiro; que “enquanto crentes não saem para evangelizar... satanás  levantou o seu ativismo [das pessoas LGBT] neste país. Ação de satanás  contra a família brasileira”; que “O problema é o ativismo gay, o  problema são pessoas que têm na sua cabeça o engendramento de satanás”;  “São homens e mulheres que usam dos mesmos mecanismos que Stanley usou  no seu comunismo nazista, usam a mesma linguagem de Hitler... uma  mentira contada várias vezes com muita ênfase se torna verdade”.<br /> <br /> Da mesma forma, no caso da censura presidencial ao vídeo da campanha do  Ministério da Saúde de combate a DST/AIDS no carnaval de 2012, com  personagens gays, o deputado Marco Feliciano não só comemorou a retirada  do vídeo da campanha com o casal gay do ar como também creditou à  Frente Evangélica o “feito”. Em seu Twitter, o deputado postou o link de  uma matéria sobre a censura do material e sentenciou: “Pressão nossa”,  numa clara demonstração da interferência religiosa na laicidade do  Estado.<br /> <br /> Em outra ocasião afirmou que “a podridão dos sentimentos dos homoafetivos leva ao ódio, ao crime e à rejeição”.<br /> <br /> Pastor Marco Feliciano, que diz não ser homofóbico, também é autor das  seguintes proposições, entre outras, que visam a negar a igualdade de  direitos à população LGBT:<br /> <br /> Projeto de Decreto Legislativo 637/2012 – Ementa: Susta a aplicação da  decisão do Supremo Tribunal Federal proferida na Ação Direta de  Inconstitucionalidade (ADI) 4277 e na Arguição de Descumprimento de  Preceito Fundamental (ADPF) 132, que reconhece como entidade familiar a  união entre pessoas do mesmo sexo.<br /> <br /> Projeto de Decreto Legislativo 521 e 495/2011 – Ementa: convoca  plebiscito sobre o reconhecimento legal da união homossexual como  entidade familiar.<br /> <br /> Também apoia o Projeto de Decreto Legislativo 234/2011 – Ementa: Susta a  aplicação do Parágrafo Único do Artigo 3º e Artigo 4º da Resolução do  Conselho Federal de Psicologia nº 1, de 23 de março de 1999, que  estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da  orientação sexual.<br /> <br /> A cruzada anti-LGBT promovida por Feliciano e outros fundamentalistas no  Parlamento Brasileiro vai contra a maré internacional, tanto dos países  vizinhos como Argentina e Uruguai, quanto a França e a Inglaterra,  todos se esforçando para garantir o alcance da plena igualdade de  direitos pelas pessoas LGBT. No nosso continente também o presidente  Obama não tem medo de expressar essa convicção publicamente, como fez no  discurso da posse em janeiro deste ano: “Nossa jornada não será  completa até que nossos irmãos e irmãs LGBT sejam tratados como qualquer  outro perante a lei – pois se somos verdadeiramente criados iguais,  então certamente o amor que dedicamos um ao outro deve ser igual  também.” Não queremos privilégios, queremos tão somente direitos iguais,  nem menos, nem mais.<br /> <br /> Assim com Feliciano, os correligionários eleitos na mesma ocasião na  semana passada também atuam na contramão da plenitude e universalidade  dos direitos humanos em outras questões também, como as terras  indígenas, os direitos sexuais e os direitos reprodutivos das mulheres,  as políticas afirmativas de acesso da população negra às universidades, e  assim por diante.  Com sua nova composição, como bem disse a deputada  Luiza Erundina (PSB/SP) “esta Comissão não é mais de direitos humanos”. <br /> <br /> Entendemos que o fundamentalismo e a intolerância religiosos  manifestados pelo Pastor Marco Feliciano e seus asseclas não são  representativos da maioria das pessoas evangélicas e somos defensores  intransigentes da liberdade de opinião e crença, desde que não se tornem  apologia de preconceitos, discriminação, violência e crimes, como o  racismo e a homofobia.<br /> <br /> Que a Câmara prime pelo bom senso e que realize uma nova eleição da  Comissão de Direitos Humanos e Minorias, uma vez que a maneira como a  eleição foi realizada a portas fechadas no dia 7 de março de 2013  contrariou o artigo 48 do Regimento Interno da Câmara dos Deputados.  Isto faz lembrar os idos de 1964.<br /> <br /> Perdemos uma batalha, mas não perdemos a guerra. Todo apoio à criação da  Frente Parlamentar dos Direitos Humanos e nossos agradecimentos pelos  esforços expendidos pelos/as seguintes parlamentares, entre outros(as),  na tentativa de reverter a desastrosa eleição: Janete Pietá (PT/SP),  Domingos Dutra  (PT/MA), Jean Wyllys (PSOL/RJ), Érika Kokay (PT/DF),  Ivan Valente (PSOL/SP), Chico Alencar (PSOL/RJ), Padre Ton (PT/RO),  Nilmário Miranda (PT/MG), Luiza Erundina (PSB/SP), Dr. Rosinha (PT/PR),   Janete Capiberibe (PSB/AP), Jandira Feghali (PCdoB/RJ), Luiz Couto  (PT/PB), Paulão (PT/AL) e Arnaldo Jordy (PPS/PA).<br /> <br /> Que o ministro Marco Aurélio do Supremo Tribunal Federal conclua a  análise do inquérito sobre o Pastor Marco Feliciano e que seja realizado  o julgamento o mais brevemente possível. <br /> <br /> No sábado, 9 de março de 2013, em todo o Brasil milhares pessoas que  ficaram revoltadas com a imoralidade da eleição da Comissão de Direitos  Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados saíram às ruas para protestar  e exigir a correção deste erro. Em Curitiba as palavras de ordem  incluíam: “Nem podridão, nem maldição, queremos igualdade na nação.”  “Pelos direitos humanos, fora Feliciano”.<br /> <br /> O paralelo com as manifestações Fora Collor ficou evidente. Agora tem-se  o movimento Fora Feliciano. Que continue havendo protestos até que  sejam reinstaladas a democracia e a ética na Comissão de Direitos  Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Que as organizações de  classe, sindicatos e todas as pessoas e instituições ligadas à promoção e  defesa dos direitos humanos se juntem às manifestações de repúdio ao  acontecido e reforcem a mobilização em prol da anulação dessa eleição  indigna.<br /> <br /> Não aceitamos e não acataremos este estupro coletivo da Comissão de  Direitos Humanos. De forma que está, ela está acabada. Não existe mais.  Se continuar assim, sugerimos que os partidos aliados dos direitos  humanos não indiquem membros para esta Comissão. <br /> <br /> A luta tem que continuar:<br /> <br /> “Na primeira noite eles se aproximam<br /> e roubam uma flor do nosso jardim.<br /> E não dizemos nada.<br /> <br /> Na segunda noite, já não se escondem;<br /> pisam as flores,<br /> matam nosso cão,<br /> e não dizemos nada.<br /> <br /> Até que um dia,<br /> o mais frágil deles,<br /> entra sozinho em nossa casa,<br /> rouba-nos a luz, e,<br /> conhecendo nosso medo,<br /> arranca-nos a voz da garganta.<br /> E já não podemos dizer nada.”</p>]]></content:encoded>
    <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
    <dc:creator>inesc</dc:creator>
    <dc:rights></dc:rights>
    <dc:date>2013-03-12T12:43:27Z</dc:date>
    <dc:type>Notícia</dc:type>
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  <item rdf:about="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/a-vida-de-uma-mulher-equivale-a-uma-lata-de-manteiga">
    <title>A vida de uma mulher equivale a uma lata de manteiga?</title>
    <link>http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/a-vida-de-uma-mulher-equivale-a-uma-lata-de-manteiga</link>
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    <content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<div class="yiv917787038MsoNormal" style="text-align:justify; "><span>Em 2006, o noticiário divulgou o julgamento de uma jovem de 19 anos,  empregada doméstica, por ter tentado roubar um pote de manteiga num  comércio em São Paulo. O roubo foi evitado pelo dono do estabelecimento.  A jovem foi condenada a 4 anos de prisão, em regime semi-aberto. <br /> Em fevereiro de 2008, Antonio Francisco Araújo da Silva cometeu um grave  crime no interior do Ceará, na cidade de Ubajara. Espancou todo o corpo  e deu marteladas na cabeça de Francisca das Chagas Oliveira (conhecida  como Fran), mulher com quem era casado. Fran, depois de muito machucada,  inclusive com afundamento da caixa craniana, desmaiou em meio a tamanha  agressividade. O desmaio fez o agressor acreditar que ela havia morrido  e por isso ele parou com seu ataque de fúria. Fran sobreviveu, mas em  decorrência desse crime brutal, até hoje tem seqüelas que alteraram  radicalmente a sua vida: toma medicamentos, vive submetida a tratamento  psicológico, perdeu 50% da audição e sofre com dores no braço direito,  entre outras. A dor e o transtorno na família de Fran também não podem  ser esquecidos.<br /> <br /> Diante da impossibilidade de apagar esse crime  na história de sua vida, ao longo desses 5 anos, familiares e amigas/os  da Fran, movimentos feministas - em especial o Movimento Ibiapabano de  Mulheres - MIM, vem clamando por justiça, na tentativa desse crime não  ficar impune. Esse sentimento foi alimentado ainda mais pelo fato do  acusado não ter ficado preso um dia sequer pelo crime cometido. <br /> Ontem, 27/02, finalmente Antonio Silva foi julgado no Fórum Clóvis  Bevilaqua, em Fortaleza. Ao final do julgamento, veio a sentença: 4 anos  de condenação em regime aberto. O argumento absurdo de que o agressor  não tem antecedentes criminais, funcionou mais uma vez para abrandar a  pena. <br /> <br /> A condenação do Antonio Francisco Araujo da Silva foi  mais amena do que a da jovem mulher que tentou roubar uma lata de  manteiga, alegadamente para ajudar aliviar a fome do seu filho. Isso nos  faz concluir que a vida de uma mulher vale menos do que uma lata de  manteiga. Como pode haver uma mesma punição para dois casos tão  díspares, quando o primeiro relaciona-se com a possível violação de uma  mercadoria e o outro caso, tem relação com a violação efetiva da vida de  uma mulher? </span></div>
<div class="yiv917787038MsoNormal" style="text-align:justify; "><span><br /> Enquanto ainda estamos inconformadas com a sentença,  permanecem em nós os sentimentos ruins provocado durante o julgamento,  ao rememorar os fatos da violência e tocar novamente nas feridas. Tudo  isso diante do agressor, frio, calculista. Há quem o classifique como  “monstro”, mas queremos considerá-lo na sua condição humana e por isso  mesmo, tem a consciência de que a sua presença no mundo tem uma dimensão  ética, que o torna capaz de tomar decisões, de fazer escolhas, de  prever as conseqüências dos seus atos, de viver em relação com suas/seus  semelhantes. </span></div>
<div class="yiv917787038MsoNormal" style="text-align:justify; "></div>
<div class="yiv917787038MsoNormal" style="text-align:justify; "><span>Não, ele não é monstro! É um homem, adulto, machista, que  certamente aprendeu a acreditar ser o dono da vida das mulheres com quem  se relaciona, que usa da força e da violência contra as mulheres para  impor suas vontades e interesses, que estabelece uma relação desigual  com uma mulher e se acha no direito de maltratá-la, de espancá-la e de  tentar tirar sua vida covardemente, que usa a violência como recurso  para resolução de conflitos. Temos que reconhecer que esse comportamento  é tipicamente humano. Somente o considerando humano, é que podemos  querer que ele assuma a conseqüência dos seus atos, que ele seja punido  por ter cometido um grave crime de violência contra a mulher, que  podemos pressionar a justiça para retirar do criminoso o direito de ir e  vir livremente. Mas se um crime desta gravidade não é devidamente  punido, fica um péssimo exemplo para outros homens que são ou que  poderão ser violentos com as mulheres que estão em volta deles.</span></div>
<div class="yiv917787038MsoNormal" style="text-align:justify; "><span><br /> E o  que tudo isso tem a ver com cada uma/um de nós? Qual a nossa  responsabilidade em desconstruir as bases de uma sociedade marcadamente  machista? Quando ousaremos educar nossas crianças para a igualdade e o  respeito entre mulheres e homens? Que mudanças no cotidiano podemos  fazer para que outros Antônios não sejam formados e outras Franciscas  não sejam vítimas de violência sexista? Quando teremos a ousadia de  semear outros valores para nossos meninos em formação? Quando deixaremos  de presentear nossos filhos com revólveres e espadas de brinquedo, para  que eles aprendam desde cedo a exercitar a violência? Quando exigiremos  que a justiça brasileira não amenize os crimes de violência contra as  mulheres, sob o pífio argumento de que o homem não tem antecedentes  criminais? Até quando a violência contra as mulheres?</span></div>
<div class="yiv917787038MsoNormal" style="text-align:justify; "><span><br /> A violência  sofrida pela Fran nos enche de indignação! E nossa indignação é porque  esta sentença deixa em nós o sabor de impunidade; porque certamente este  homem não cumprirá nem metade desta pena; porque ele permanecerá solto  representando uma ameaça à vida de Fran, de sua família e também de  outras mulheres que se aproximarem dele; porque a justiça é cega para os  crimes cometidos contra as mulheres; porque esse crime não é isolado,  mas engrossa as estatísticas da marca de 1 bilhão de mulheres que sofre  com a violência em todo o mundo.</span></div>
<div class="yiv917787038MsoNormal" style="text-align:justify; "><span><br /> Mas esta indignação, aliada ao  desejo de justiça, também nos mobiliza. Em nome delas continuaremos a ir  pras ruas, a levantar nossas bandeiras, a lutar pelo fim da violência  contra as mulheres, a tocar tambores denunciando as opressões e,  sobretudo, a continuar lutando pela defesa, efetivação e ampliação dos  direitos das mulheres. <br /> Enquanto houver injustiça, sempre haverá luta!!!<br /> <br /> Francisca Sena – militante do Instituto Negra do Ceará e do Fórum Cearense de Mulheres</span></div>
<div class="yiv917787038MsoNormal" style="text-align:justify; "><span> <br /></span></div>]]></content:encoded>
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    <dc:rights></dc:rights>
    <dc:date>2013-03-06T13:00:41Z</dc:date>
    <dc:type>Notícia</dc:type>
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  <item rdf:about="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/que-tipo-de-papa-as-tensoes-internas-da-igreja-atual">
    <title> Que tipo de Papa? As tensões internas da Igreja atual</title>
    <link>http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/que-tipo-de-papa-as-tensoes-internas-da-igreja-atual</link>
    <description></description>
    <content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p>Não me             proponho apresentar uma balanço do pontificado de Bento XVI,             coisa que foi feito com competência por outros. Para os             leitores talvez seja mais interessante conhecer melhor uma             tensão sempre viva dentro da Igreja e que marca o perfil de             cada Papa. A questão central é esta: qual a posição e a             missão da Igreja no mundo?</p>
<p>Antecipamos             dizendo que uma concepção equilibrada deve assentar-se sobre             duas pilastras fundamentais: o Reino e o mundo. O <i>Reino</i> é             a mensagem central de Jesus, sua utopia de uma revolução             absoluta que reconcilia a criação consigo mesma e com Deus.             O <i>mundo</i> é o lugar onde a Igreja realiza seu serviço             ao Reino e onde ela mesma se constrói. Se pensarmos  a             Igreja demasiadamente ligada ao Reino, corre-se o risco de             espiritualização e de idealismo. Se demasiadamente próxima             do mudo, incorre-se na tentação da mundanização e  da             politização. Importa saber articular Reino-Mundo-Igreja. Ela             pertence ao Reino e também ao mundo. Possui uma dimensão             histórica com suas contradições e outra transcendente.</p>
<p>Como viver             esta tensão dentro do mundo e da história? Apresentam-se             dois modelos diferentes e, por vezes, conflitantes: o do             testemunho e o do diálogo.</p>
<p>O modelo             do <b>testemunho </b>afirma com convicção: temos o depósito             da fé, dentro do qual estão todas as verdades necessárias             para a salvação; temos o sacramentos que comunicam graça;             temos uma moral bem definida; temos a certeza de que a             Igreja Católica é a Igreja de Cristo, a única verdadeira;             temos o Papa que goza de infalibilidade em questões de fé e             moral; temos uma hierarquia que governa o povo fiel; e temos             a promessa de assistência permanente do Espírito Santo. Isto             tem que ser testemunhado face a um mundo que não sabe para             onde vai e que por si mesmo jamais alcançará a salvação. Ele             terá que passar pela mediação da Igreja, sem a qual não há             salvação.</p>
<p>Os             cristãos deste modelo, desde Papas até os simples fiéis, se             sentem imbuídos de uma missão salvadora única. Nisso são             fundamentalistas e pouco dados ao diálogo. Para que             dialogar? Já temos tudo. O diálogo é para facilitar a             conversão e é um gesto de civilidade.</p>
<p>O modelo             do <b>diálogo</b> parte de outros pressupostos: O Reino é             maior que a Igreja e conhece também uma realização secular,             sempre onde há verdade, amor e justiça; o Cristo             ressuscitado possui dimensões cósmicas e empurra a evolução             para um fim bom; o Espírito está sempre presente na história             e nas pessoas do bem; Ele chega antes do missionário, pois             estava nos povos na forma de solidariedade, amor e             compaixão. Deus nunca abandonou os seus e a todos oferece             chance de salvação, pois os tirou de seu coração para um dia             viverem felizes no Reino dos libertos. A missão da Igreja é             ser sinal desta história de Deus dentro da história humana e             também um instrumento de sua implementação junto com outros             caminhos espirituais. Se a realidade tanto religiosa quanto             secular está empapada de Deus devemos todos dialogar:             trocar, aprender uns dos outros e tornar a caminhada humana             rumo à promessa feliz, mais fácil e mais segura.</p>
<p>O primeiro             modelo do <b>testemunho</b> é da Igreja da tradição, que             promoveu as missões na África, na Ásia e na América latina,             sendo até cúmplice em nome do testemunho da dizimação e             dominação de muitos povos originários, africanos e             asiáticos. Era o modelo do Papa João Paulo II que corria o             mundo, empunhando a cruz como testemunho de que ai vinha a             salvação. Era o modelo, mais radicalizado ainda, de Bento             XVI que negou o título de “Igreja” às igrejas evangélicas,             ofendendo-as duramente; atacou diretamente a modernidade             pois a via negativamente como relativista e secularista.             Logicamente não lhe negou todos os valores mas via neles             como fonte a fé cristã. Reduziu a Igreja a uma ilha isolada             ou a uma fortaleza, cercada de inimigos por todos os lados             contra os quais importa se defender.</p>
<p>O modelo             do <b>diálogo </b>é do Concílio Vaticano II, de Paulo VI e  de             Medellin e de Puebla na América Latina. Viam o cristianismo             não como um depósito, sistema fechado com o risco de ficar             fossilizado, mas como uma fonte de águas vivas e cristalinas             que podem ser canalizadas por muitos condutos culturais, um             lugar de  aprendizado mútuo porque todos são             portadores do Espírito Criador e  da essência             do  sonho de Jesus.</p>
<p>O primeiro             modelo, do <b>testemunho</b>, assustou a muitos cristãos que             se sentiam infantilizados e desvalorizados em seus saberes             profissionais; não sentiam mais a Igreja como um lar             espiritual e, desconsolados, se afastavam da instituição mas             não do Cristianismo como valor e utopia generosa de Jesus.</p>
<p>O segundo             modelo, do <b>diálogo</b>, aproximou a muitos pois se             sentiam em casa, ajudando a construir uma Igreja-aprendiz e             aberta ao diálogo com todos. O efeito era o sentimento de             liberdade e de criatividade. Assim vale a pena ser cristão.</p>
<p>Esse             modelo do <b>diálogo</b> se faz urgente caso a             instituição-Igreja quiser sair da crise em que se meteu e             que atingiu seu ponto de honra: a moralidade (os pedófilos),             a espiritualidade,  a falta de transparencia (roubo de             documentos secretos e outros problemas graves  no Banco do             Vaticano), e a perda de fieis, sobretudo entre a juventude.</p>
<p>Devemos             discernir com inteligência o que atualmente melhor serve à             mensagem cristã  no interior de uma crise ecológica e social              de gravíssimas consequências. O               problema central do mundo não é a Igreja (cada vez mais               européia e branca)mas o  futuro da Mãe Terra,               da vida e da nossa civilização. Como a Igreja ajuda             nessa travessia? Só dialogando e somando forças com todos.</p>
<p> </p>
<p> </p>
<p>Leonardo             Boff é autor de <i>Igreja: carisma e poder</i>, livro             ajuizado pelo então Cardeal Joseph Ratzinger.</p>]]></content:encoded>
    <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
    <dc:creator>inesc</dc:creator>
    <dc:rights></dc:rights>
    <dc:date>2013-02-15T12:29:55Z</dc:date>
    <dc:type>Notícia</dc:type>
  </item>


  <item rdf:about="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/decisao-democratica-e-sensata">
    <title>Decisão Democrática e Sensata</title>
    <link>http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/decisao-democratica-e-sensata</link>
    <description></description>
    <content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p><b>Marcelo Zero*</b></p>
<p>O imbróglio jurídico-político causado pela doença do presidente Hugo Chávez provocou um verdadeiro febeapá constitucionalista em parte da nossa mídia.</p>
<p>Com efeito, alguns articulistas e “formadores de opinião”, que já haviam se especializado na interpretação da nossa constituição, distribuindo conselhos e advertências aos juízes do STF, no episódio da Ação Penal 470, tornaram-se, subitamente, profundos conhecedores da ordem constitucional venezuelana. Julgam conhecer tão bem a Carta Magna do país vizinho que, do alto de sua intempestiva sapiência, obtida provavelmente num curso relâmpago do Google, se dão ao desplante de criticar pesadamente a decisão da “Corte chavista”, a qual manteve o mandato popular do atual presidente. Não bastasse, os críticos do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) da Venezuela condenam o governo brasileiro por ter dado apoio ao imaginário “golpe” ocorrido nas terras de Simón Bolívar.</p>
<p>Pois bem, a decisão do TSJ venezuelano foi suscitada por iniciativa da oposição, que demandou daquele tribunal uma interpretação do alcance e da letra do artigo 231 da Constituição de 1999. Especificamente, a oposição inquiriu à Corte da Venezuela se o juramento previsto constitui uma formalidade <i>sine qua non</i> para que o Presidente reeleito continue a exercer suas funções e se tal formalidade pode se dar em data posterior.</p>
<p>Ao contrário do que muitos supunham, a Corte venezuelana, em sua sentença, considerou que o juramento não é mera formalidade prescindível. Com efeito, ela faz parte da tradição política venezuelana. Entretanto, tal tradição se modificou, após a Constituição de 1999.</p>
<p>Na antiga Constituição de 1961, a transição política era regulada pelo artigo 186, o qual previa explicitamente que, ante a impossibilidade do eleito assumir o cargo no prazo estipulado, era declarada sua falta absoluta, o presidente em exercício renunciava, e o poder era entregue ao Presidente do Congresso, que convocava novas eleições. Isso tinha uma razão de ser. A Carta Magna de 1961 proibia, em seu artigo 185, a reeleição. Elaborada no quadro político do Pacto de Punto Fijo, que previa um programa mínimo comum e a restrita alternância no poder entre os dois maiores partidos conservadores da Venezuela, o <i>Partido Socialcristiano</i> (COPEI) e a <i>Acción Democrática</i> (AD), essa constituição pressupunha que todo novo período constitucional contaria com novo mandatário.</p>
<p>A Constituição de 1999, ao prever a reeleição, rompeu parcialmente com essa tradição. Por isso, a Corte venezuelana concluiu que, no caso de uma autoridade reeleita e relegitimada pela vontade popular, seria um “contrassenso maiúsculo” considerar que existe uma prorrogação indevida de um mandato, em prejuízo do sucessor, pois a pessoa com o mandato que se extingue é a mesma que conquistou, nas urnas, o novo mandato. Observe-se que essa interpretação da Constituição da Venezuela não é casuística. Na realidade, o TSJ venezuelano já havia se manifestado, de forma semelhante, nas seguintes sentenças: 471/2001, 759/2001 e 1680/2007. Diga-se de passagem, o artigo 231 prevê explicitamente a possibilidade do novo presidente tomar posse em data posterior, ante o TSJ, por qualquer motivo sobrevindo que impeça o juramento, perante a Assembleia, no prazo estipulado.</p>
<p>O argumento central da Corte, porém, não foi esse. O TSJ considerou que qualquer pretensão de anular uma eleição ou não proclamar um candidato legitimamente reeleito, sem uma determinação constitucional expressa, seria subordinar a vontade popular a uma “técnica operativa” e provocar um trauma político e institucional. Em suma: na sua interpretação axiológica da Carta de 1999, o TSJ reafirmou a primazia do voto popular, fundamento último de qualquer democracia digna desse nome.</p>
<p>O mesmo fez o governo brasileiro. Tanto no episódio de ex-presidente Lugo, quanto agora, na Venezuela, o Brasil defendeu a vontade popular expressa no voto. Portanto, defendeu, nas duas ocasiões, o princípio basilar da democracia. Nos dois casos, foi acompanhado por todas as outras nações da América do Sul.</p>
<p>Mas a decisão da Corte venezuelana, além de ser a mais acertada, do ponto de vista jurídico, é também a mais sensata, do ponto de vista político. Chávez foi reeleito em pleito limpo e seu partido, o PSUV, ganhou em 20 dos 23 estados, nas eleições regionais. Foi uma verdadeira surra. Nesse quadro, querer tirar Chávez do poder, enquanto, sob intensa comoção popular, ele ainda tenta se recuperar de uma cirurgia, é pretender imergir a Venezuela numa guerra civil. Até o mais beócio dos conservadores entende isso. Capriles, que não é bobo, vem recomendando aos seus correligionários que reconheçam a sentença do TSJ.</p>
<p>O Brasil fez a coisa certa: defendeu a democracia e a paz interna da Venezuela, em estrito respeito aos princípios inscritos no Protocolo de Ushuaia, na Carta Democrática da OEA e no Protocolo Democrático da Unasul.  O resto é bobagem. Bobagem de quem parece ter tão poucos neurônios quanto votos.</p>
<p><b>*Marcelo Zero, sociólogo, é assessor da bancada do PT no Senado Federal</b></p>
<p> </p>
<p> </p>
<p> </p>]]></content:encoded>
    <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
    <dc:creator>inesc</dc:creator>
    <dc:rights></dc:rights>
    <dc:date>2013-01-22T12:02:02Z</dc:date>
    <dc:type>Notícia</dc:type>
  </item>


  <item rdf:about="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/licoes-retiradas-do-debate-sobre-o-codigo-florestal.-por-que-ate-hoje-ele-gera-polemicas">
    <title>Lições retiradas do debate sobre o código florestal. Por que até hoje ele gera polêmicas?</title>
    <link>http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/licoes-retiradas-do-debate-sobre-o-codigo-florestal.-por-que-ate-hoje-ele-gera-polemicas</link>
    <description></description>
    <content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p>16/1/2013 Por Marilza de Melo Foucher - de Paris</p>
<p> </p>
<p>No verde, verde de medo, entre ciladas E nos cipós ardentes das queimadas, Enforca-se o uirapuru Na clave de seu canto (do poeta paraense Paes Loureiro)  Breve introdução  Quem já viajou pelas diferentes regiões do Brasil, pode constatar o quanto o Brasil é diverso e único. Diverso, por ser multicultural e pela sua biodiversidade, único pelo jeito do ser brasileiro em qualquer região, um povo alegre, hospitaleiro e o povo mais mestiço do planeta.  Durante muitos anos, tive a chance de viajar pelos vários Brasis que formam a geografia deste país de dimensão continental. Ou seja, o Brasil da Amazônia, o Brasil Centro-Oeste, O Brasil do Nordeste, o Brasil do Sudeste, o Brasil do Sul.</p>
<p>Durante muitos anos, atuando na cooperação internacional ao desenvolvimento, encontrei muitos atores locais que lutaram pela democratização do Brasil e que até hoje travam um combate por outro modelo de desenvolvimento. Estes atores sociais estão no terreno da ação, estão presentes nos centros de pesquisas, nas universidades, nas ONGs, nos movimentos sociais, nas pastorais comprometidas.</p>
<p>Foram eles que deram uma cara nova à chamada sociedade civil brasileira. Eles são testemunhos do Brasil que não deu certo.  Por isso, eles tentam, ao longo de muitos anos, alertar aos políticos, aos gestores do poder executivo, para que abandonem a visão economicista do desenvolvimento e se deem conta da realidade diversa e complexa que é o Brasil. Isto exige dos governantes um tratamento mais global desta questão e uma visão mais sistêmica do desenvolvimento.</p>
<p>Foi com estes atores que aprendi a conhecer melhor o Brasil (que eu deixei na minha tenra idade) e, até hoje, eles alimentam minha sede de aprendizado. Graças a eles, mesmo vivendo na França, mantenho-me atualizada sobre a situação sócio-econômica, política, cultural e ambiental do Brasil.  Hoje, considero-me uma cidadã franco-brasileira sem fronteiras. Viajo, via internet, sem precisar de passaporte. Guardo, todavia, dentre de mim, a identidade tropical de cabocla amazônica, nascida à beira do Rio Acre. Daí meu combate incessante pela defesa de um desenvolvimento territorial integrado que seja compatível com a diversidade ecológica, cultural, onde o econômico não seja o único fator predominante, tendo em vista que a economia deve estar a serviço do ser humano e do progresso social.</p>
<p>Sem a prática de desenvolvimento territorial integrado e solidário, o código florestal brasileiro é inaplicável.  Antes de legislar sobre o Código Florestal, os parlamentares brasileiros e o governo da presidente Dilma Rousseff deveria ter ocupado mais tempo para aprofundar e repensar um novo modo de desenvolvimento e o ordenamento territorial do Brasil. A discussão poderia ter tido um envolvimento maior da sociedade brasileira. A grande questão que nossos governantes deveriam ter abordado antes de legislar sobre o código florestal seria: Somos nós capazes de organizar, a tempo e de modo participativo, a mutação para um novo modo de vida? Ou vamos passivamente assistir à destruição silenciosa da grande riqueza do Brasil, que é a sua biodiversidade? Este é o maior desafio a ser enfrentado pelo atual governo, diante da crise planetária econômico-ambiental.</p>
<p>Em síntese, cabe ao Estado brasileiro, republicano e democrático, instaurar uma governabilidade que esteja a serviço do desenvolvimento economicamente eficiente, socialmente equitativo e ecologicamente sustentável. Este tipo de desenvolvimento se funda na busca pela integração e coerência das políticas setoriais. Melhorar por exemplo, a legislação do código florestal, ultrapassa o jogo político partidário, tendo em vista que está em jogo a proteção da biodiversidade brasileira, associada a um novo modo de progresso. O Brasil não pode ter um código florestal, ditado por uma concepção produtivista, que hoje se encontra ultrapassada, questionada no mundo inteiro, dado aos grandes danos que causou ao planeta Terra. O Brasil é, hoje, respeitado e considerado como grande potência por esta razão. Não pode perder a oportunidade, neste momento de crise do modelo neoliberal, de traçar os seus próprios caminhos.</p>
<p>A ocasião é propicia para transformar a crise em oportunidade. Torna-se urgente que o governo federal, articulado com os governos estaduais e municipais, decida sobre um grande projeto de sociedade, um projeto de civilização, distinto do modelo produtivista baseado exclusivamente no crescimento econômico. Sua incompatibilidade com a preservação dos recursos naturais é, hoje, comprovada. Por que então persistir no erro?  Não negamos os esforços do governo brasileiro na tentativa de diminuir o desmatamento das florestas, entretanto, ainda há muito que se fazer na aplicação da legislação existente, embora permaneça o sentimento de que as conquistas no campo da preservação dos ecossistemas e da regulamentação do uso da floresta nem sempre são realizadas.</p>
<p>O Brasil, enquanto signatário da convenção sobre a diversidade biológica de 1992, deve conciliar preservação ambiental com desenvolvimento. Não podemos nos esquecer dos herdeiros de Ajuri Caba, líder indígena na resistência aos portugueses, e dos Cabanos. As populações indígenas são os maiores defensores das riquezas naturais da Amazônia, de sua biodiversidade e da preservação de suas fronteiras. Afinal, os índios continuam sendo os guardiões naturais desse espaço de esperança!  Temos que levar em conta a riqueza da biodiversidade presente nas diferentes regiões brasileiras. Em cada região, existem ecossistemas naturais com alta diversidade de espécies vegetais e animais.</p>
<p>Os debates sobre a reforma do código florestal, não fez mais do que acentuar as divergências com a sociedade civil e suas correntes representativas. O que se assistiu, até hoje, foram polêmicas intermináveis. De um lado, as discussões entre os representantes da corrente hegemônica, formada pelos defensores do agronegócio, pela direita ruralista que sempre defendeu o desenvolvimento produtivista e, de outro, os ambientalistas fundamentalistas, que não integram a dimensão global do desenvolvimento e por vezes são ultra-sectários.</p>
<p>O campo ambientalista é diverso e existe no Brasil uma maioria que defende a ecologia política, a proteção do meio ambiente associado à concepção não compartimentada do desenvolvimento, ou seja, todos os setores se interagem na busca pela sustentabilidade, que não somente a econômica.  Viu-se, também, o posicionamento de alguns cientistas que tentaram abrir um espaço de reflexão. Muitos dizem, com toda razão, que esta discussão deveria ter sido mais pluridisciplinar. Logicamente, não se pode exigir que todo parlamentar detenha um super conhecimento, e legisle sobre qualquer sujeito. Por esta razão, antes de legislar, os políticos devem escutar os principais atores implicados e solicitar assessoramento de cientistas de várias áreas do conhecimentos.</p>
<p>O Brasil sempre teve a reputação de ser um país que possui excelentes quadros de pesquisadores, basta para isto verificar os acordos internacionais existentes com universidades brasileiras e com os centros de pesquisas. Temos grandes especialistas em todas as áreas do conhecimento que poderiam ter fornecido subsídios científicos e tecnológicos, capazes de permitir o embasamento necessário para que o código florestal se adapte à nova realidade brasileira.</p>
<p>O Brasil tem a chance de dispor sobre uma intelectualidade engajada não somente no campo acadêmico e nos centros de pesquisas, parte dela está comprometida no campo da ação política transformadora. Além disso, eles asseguram uma produção cientifica permanente. A complexidade da elaboração de um novo código florestal, além do rigor cientifico, exigiria um tempo maior de escuta, de intercâmbios de informações. A soma de saberes e sua socialização junto aos deputados e senadores poderiam ter contribuído para que o debate fosse além da modificação do Código Florestal.</p>
<p>Ou seja, um debate prolongado, mesmo se 11 meses de audiências públicas fossem considerados suficientes para muitos. Entretanto, se levamos em conta as polêmicas geradas até hoje, é porque, talvez, muitas questões fundamentais não foram abordadas preliminarmente.  Entre elas, a necessidade de formular uma estratégia de planejamento para um melhor ordenamento territorial, atada a uma concepção mais integrada do desenvolvimento territorial brasileiro. Um modo de intervir compatível com a diversidade ecológica e cultural, onde o econômico não seja somente o único fator predominante, tendo em vista que a economia deve estar a serviço do ser humano e do progresso social. Esta seria a condição sine quoi non para modificar, em seguida, o código florestal, adaptando-o a uma nova realidade.  Marilza de Melo Foucher é doutora em Economia, especializada em desenvolvimento territorial integral e solidário, jornalista e correspondente do Correio do Brasil, em Paris.</p>]]></content:encoded>
    <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
    <dc:creator>inesc</dc:creator>
    <dc:rights></dc:rights>
    <dc:date>2013-01-18T14:24:41Z</dc:date>
    <dc:type>Notícia</dc:type>
  </item>


  <item rdf:about="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/conselhos-e-conferencias-quem-participa-e-como-chegam-nesses-espacos">
    <title>Conselhos e Conferências: quem participa e como chegam nesses espaços?</title>
    <link>http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/conselhos-e-conferencias-quem-participa-e-como-chegam-nesses-espacos</link>
    <description></description>
    <content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p align="right"><i>Ana Claudia Chaves Teixeira</i></p>
<p align="right"><i>Clóvis Henrique Leite de Souza</i></p>
<p align="right"><i>Paula Pompeu Fiuza de Lima<a href="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/conselhos-e-conferencias-quem-participa-e-como-chegam-nesses-espacos/#_ftn1"><b>[1]</b></a></i></p>
<p>Se olharmos para o conjunto dos conselhos nacionais, encontraremosem torno de2.800 vagas disponíveis para a sociedade civil e 2.700 vagas disponíveis para pessoasdos governos (federal, estaduais ou municipais). São mais de5 mil e quinhentos participantes no total. Nas conferências nacionais estima-se que participaram entre 2003 e 2010 cerca de 5 milhões de pessoas. Mas como todo este contingente de pessoas chega a ocupar os conselhos nacionais? E qual é o percurso para se chegar às conferências nacionais?</p>
<p>É importante lembrar que tanto nos conselhos quanto nas conferências há o suposto de que exista uma representação, ou seja, as pessoas que ocupam este lugar não estariam falando em seu próprio nome, mas falariam em nome de setores ou segmentos sociais, com seus interesses e perspectivas diferenciadas.</p>
<p>Neste artigo queremos destacar, primeiro,a multiplicidade de composições e de representações nestes dois espaços. Segundo, destacamos que, ao invés de encontrarmos neles predominantemente setores ou segmentos sub-representadospoliticamente - como era de se esperar levando em conta as demandas dos movimentos sociais na criação de canais de interlocução com o Estado -, o que encontramos foi a presença forte de muitos outros segmentos (como os empresários) a depender do tipo de conselho.  Quais os significados destas distintas representações? Sobre isso trataremos daqui em diante. <a href="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/conselhos-e-conferencias-quem-participa-e-como-chegam-nesses-espacos/#_ftn2">[2]</a></p>
<p> </p>
<p><b><i>Como é a composição dos conselhos e conferências? Que segmentos estão representados? Há variações importantes dependendo do tipo de conselho?</i></b></p>
<p> </p>
<p>No caso dos conselhos, boa parte dos espaços é paritária, ou seja, possui metade de conselheiros da sociedade civil e a outra metade de conselheiros governamentais. Mas isso é a média, há conselhos como o de saúde em que os representantes do governo são minoria, ou o de Meio Ambienteem que os conselheiros da sociedade civil são minoria.</p>
<p>Esta proporção é boa ou ruim? O que ela implica? Ela deveria ser diferente? Esta proporção indica o grau de distribuição de poder dentro do espaço do conselho. Em conselhos onde a maioria é feita de setores de governo a tendência é que a minoria da sociedade civil tenha dificuldades de fazer valer suas opiniões, e o espaço funcione mais como uma forma de articulação entre os próprios setores de governo (que nem sempre têm a mesma opinião).</p>
<p>No que se refere às conferências,em geral se destinam muito mais vagas para a sociedade civil do que para os governos. Entre aquelas conferências em que foi possível descobrir a composição, em média, são 70% de vagas para sociedade civil e 30% para os governos.</p>
<p>Algumas conferências sugerem em seus regimentosque as delegações governamentais sejam compostas por representantes dos três poderes. Mas o mais comum é osrepresentantes do Executivo participarem mais. Se imaginarmos que muitas das propostas formuladas dependem do Legislativo e também do Judiciário para a implementação, é possível dizer que o envolvimento desses poderes é baixo.</p>
<p>No caso da representação da sociedade nas conferências, a distribuição de vagas é específica em cada espaço, a depender dos segmentos reconhecidos naquela área temática. De maneira geral, são cinco categorias presentes: usuários, trabalhadores, movimentos sociais, empresários e sindicatos. Além desses, podem estar presentes prestadores de serviço ou concessionários de serviços públicos, ONGs, entidades profissionais, acadêmicas e de pesquisa. A depender da forma como está organizada a sociedade naquela área temática, varia a quantidade de vagas destinadas a cada segmento.</p>
<p>De maneira geral, o que se verifica na representação da sociedade civil nos conselhos é a presença significativa dos movimentos sociais, mas não predominante em todos os conselhos.Pudemos notar que de acordo com os objetivos dos conselhos, mais representantes de um ou outro tipo de organização se fazem presentes. Em conselhos de fundos, como o FGTS ou do Fundo de Amparo ao Trabalhador,a presença maior é de confederações empresariais, bem como de sindicatos.</p>
<p>Em conselhos com forte atribuição de assessoria técnica, como a Comissão Técnica de Biossegurança, prevalecem organizações ligadas à pesquisa e a grupos empresariais. A presença de organizações ligadas à pesquisa nesse tipo de conselho parece óbvia, visto que o objetivo do espaço é dar subsídios técnicos às decisões do órgão. Contudo, é intrigante perceber que os empresários, que a princípio não seriam detentores de um saber técnico, têm presença significativa nesses espaços.</p>
<p>Quando os conselhos têm como atribuição fomentar a participação e defender direitos é que os movimentos sociais estão mais presentes. O que podemos perceber é que há maior participação de movimentos sociais em espaços que tradicionalmente já são “ocupados” por movimentos sociais. É importante eles estarem lá, mas o que mais chama atenção é que em outros conselhos, de fundos ou com perfil mais técnico, eles praticamente não estejam presentes, e predominem “velhos” atores, ligados aos empresários ou aos tradicionais detentores de “saber”. Podemos concluir que de fato há pequena garantia da presença de múltiplas vozes no debate, em especial pela ausência de grupos comumente excluídos dos espaços decisórios.</p>
<p> </p>
<p><b>A desigualdade permanece ou ela foi alterada nestes espaços? Os espaços estão abertos a novos sujeitos?</b></p>
<p> </p>
<p>Se observarmos a proporção de homens e mulheres no total de conselhos veremos que quase 60% são homens. Esta proporção é melhor do que o do Congresso Nacional, que só possui 8% de mulheres, mas é óbvio que ainda há uma grande desigualdade.  Infelizmente não obtivemos dados sobre a raça ou etnia dos participantes para aferir se a desigualdade neste caso permanece.</p>
<p>Sobre as conferências, é possível perceber que para garantir a presença de certos públicos na etapa nacional, algumas conferências estabeleceram cotas para a composição das delegações a serem eleitas nas etapas estaduais. Entre as conferências, ⅓ apresentou alguma ação para garantir a inclusão de sujeitos marginalizados do sistema político nesses processos participativos. Os critérios utilizados foram gênero (em 7 conferências), idade (em 4 conferências), raça, cor ou etnia (em 5 conferências), condição socioeconômica (nas conferências de segurança alimentar). Embora a destinação de vagas oportunize que beneficiários de políticas se vejam como sujeitos de direitos e com a inclusão no processo participativo possam reivindicar seus direitos e apresentar suas perspectivas das questões em pauta, é importante ponderar que a ação inclusiva aconteceu mais em conferências que de alguma forma lidam com questões do cotidiano dessas pessoas. Isso pode indicar uma tendência à escuta de demandas de beneficiários das políticas e não à inclusão de sujeitos marginalizados dos espaços de formulação de políticas públicas a fim dequestionarr os consensos formados nas diferentes áreas.</p>
<p>Por fim, vale uma reflexão sobre o desafio da inclusão de representantes “denominados” nacionais em detrimento das representações locais. Os conselhos não possuem nenhuma vinculação de representação que vai do local para o nacional. Em alguns espaços, representantes de conselhos subnacionais são chamados a participar, mas esses casos são exceção e não a regra.<a href="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/conselhos-e-conferencias-quem-participa-e-como-chegam-nesses-espacos/#_ftn3">[3]</a>Comumente, se estabelece que as organizações devam ser de abrangência nacional, atuando em um número mínimo de estados da federação para serem habilitadas a falar no espaço participativo nacional.</p>
<p>O fato de somente organizações de abrangência nacional poder participar dificulta o acesso de organizações que tem a atuação restrita a certos estados ou que trabalham em municípios menores. Ainda assim, decisões dos conselhos nacionais em muitas situações afetam as dinâmicas locais de formulação de políticas públicas.  Vemos que ao mesmo tempo em que os regimentos internos dos conselhos restringem a inserção de determinados atores mais ligados às dinâmicas regionais e locais, os conselhos são imbuídos do poder de interferir nas dinâmicas locais. Considerando que as políticas públicas são, de fato, concretizadas no âmbito local, e que por isso, é nesse âmbito que se encontram os representados das políticas, a restrição de os representantes possuírem abrangência nacional é um entrave a maior aproximação entre representante e representado.</p>
<p>Somente nas conferências é que podemos notar a participação mais ativa dos atores locais. Em geral, as etapas preparatórias das conferências correspondem aos níveis da federação (73% das conferências foram realizadas em estados e municípios) e, sendo um processo escalonado, as conferências municipais são seguidas de etapas estaduais e posteriormente de uma nacional. As conferências que não realizaram etapas municipais e estaduais tiveram nas etapas regionais a preparação para a nacional. Ainda na dimensão geográfica, outra modalidade de etapa preparatória existente foi a conferência intermunicipal que facilitou a mobilização e a discussão de base territorial.</p>
<p><b> </b></p>
<p><b>Como se chega nestes espaços? Há eleições, de que forma?</b></p>
<p><b> </b></p>
<p>Nos conselhos, há pouca eleição para a escolha de representantes. Isso não deixa de ser surpreendente. Em um terço dos casos as vagas são ocupadas por organizações já previamente mencionadas nos atos normativos do conselho e em outro um terço por indicação feita pelo ministro ou por uma comissão.</p>
<p>Somente em 21% dos conselhos mapeados há eleições para a escolha de representantes. O uso de eleições seria o método mais inclusivo dentre os existentes, pois permite tanto que as organizações autonomamente escolham quem vai falar por elas quanto possibilita que novas entidades se insiram nos espaços de partilha de poder, por mais que a participação em um espaço por um novo ator seja sempre mais difícil do que por um ator que já está inserido no debate. Os conselhos de direitos são os que, proporcionalmente, mais utilizam esse tipo de método de escolha de representante.</p>
<p>As conferências, por sua vez, são constituídas por etapas concatenadas. Nesse caso, a sociedade se envolve na escolha dos representantes. A princípio, os representantes das conferências são eleitos em espaços abertos a toda a população. Contudo, observando o conjunto de conferências, percebe-se que há nas etapas nacionais três tipos de representantes com direito a voz e voto. Além dos representantes eleitos em etapas preparatórias, existem também os natos e os indicados. Os representantes natos são aqueles que integram a comissão organizadora da conferência ou o respectivo conselho nacional.</p>
<p>Os representantes indicados são aquelas organizações consideradas relevantes para o debate, à semelhança do que ocorre nos conselhos.Esta modalidade de representação esteve presente em 42% das conferências. Nestes casos, as organizações não foram eleitas em etapas preparatórias, mas sim indicadas pela comissão organizadora, da mesma forma como acontece nos conselhos nacionais. A representação por indicação pode ser uma maneira de garantir a presença de um público que, sem esse estímulo, não participaria desse fórum de discussão. Cabe apenas se perguntar se a ausência ocorreria por incapacidade de articulação para a eleição nas etapas preparatórias ou por desinteresse com a conferência, pois em alguns casos organizações de abrangência nacional podem ter acesso a outros foros em que a mesma pauta se coloca.</p>
<p>Nesse caso, o que parece acontecer é que organizações já reconhecidas como importantes não necessitam se articular com aqueles que dizem representar. Afinal, é na capilaridade dos municípios que se encontram os representados, os afetados pelas políticas que ajudam a formular. Se essas organizações conseguem estar presentes nos conselhos, espaços mais restritos e permanentes, sem a necessidade de consultar os representados, por que precisariam fazê-lo na conferência? Há, nesse caso, a legitimação por parte do governo e das organizações que fazem parte dos espaços participativos da representação sem vinculação com as bases.</p>
<p>Cabe, então, repensarmos o funcionamento de conselhos e conferências para que esses espaços possam, de fato, contribuir com a inclusão de grupos historicamente excluídos e também para que haja um processo representativo mais consistente. Ou seja, pelo que se observa em conselhos e conferências é necessário rever critérios de escolha de representantes, além de implementar instrumentos que qualifiquem o exercício da representação. Afinal, a representação é inerente a processos participativos em grande escala. Desta forma, para se evitar vícios já observados em outros espaços políticos, é fundamental a revisão constante de práticas, evitando a cristalização de desigualdades de acesso ao processo político.</p>
<p> </p>
<p>Saiba Mais:</p>
<p> </p>
<ul>
<li>Nestes links, você encontra o relatório de pesquisa com mais informações sobre a representação em conselhos e conferências: </li>
</ul>
<p><a href="http://www.polis.org.br/uploads/1262/1262.pdf">http://www.polis.org.br/uploads/1262/1262.pdf</a></p>
<p><a href="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/livros/2012/relatorio-final-arquitetura-da-participacao-no-brasil-avancos-e-desafios">http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/livros/2012/relatorio-final-arquitetura-da-participacao-no-brasil-avancos-e-desafios</a></p>
<p><br clear="all" /></p>
<hr align="left" size="1" width="33%" />
<p><a href="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/conselhos-e-conferencias-quem-participa-e-como-chegam-nesses-espacos/#_ftnref1">[1]</a>Este artigo foi elaborado de forma totalmente compartilhada. Os nomes dos autores estão em ordem alfabética, o que não representa qualquer diferença de contribuição.</p>
<p><a href="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/conselhos-e-conferencias-quem-participa-e-como-chegam-nesses-espacos/#_ftnref2">[2]</a>Este artigo é um fruto da pesquisa “Arquitetura da Participação” realizada por Inesc e Pólis entre 2010 e 2011.</p>
<p><a href="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/conselhos-e-conferencias-quem-participa-e-como-chegam-nesses-espacos/#_ftnref3">[3]</a> Os conselhos que incluem a participação de espaços participativos subnacionais são: Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas e Conselho Nacional de Recursos Hídricos.</p>]]></content:encoded>
    <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
    <dc:creator>inesc</dc:creator>
    <dc:rights></dc:rights>
    <dc:date>2013-01-10T14:25:59Z</dc:date>
    <dc:type>Notícia</dc:type>
  </item>


  <item rdf:about="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/a-cop-18-deixou-um-gosto-amargo-para-o-nosso-futuro-comum">
    <title>A COP 18 deixou um gosto amargo para o nosso futuro comum </title>
    <link>http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/a-cop-18-deixou-um-gosto-amargo-para-o-nosso-futuro-comum</link>
    <description></description>
    <content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p><b>INFORME FINAL DA COP 18 - DOHA</b></p>
<p><b>Iara Pietricovsky*</b></p>
<p>COP 18 acabou deixando um resultado modesto e neste caso, o modesto não serve ao Planeta. Um sentimento amargo de quem vai mais uma vez para um espaço de luta política numa tentativa de que as mentes dos negociadores, que representam os “interesses” de seus governos, saberão chegar a um acordo que satisfaça e que proteja o Planeta Terra do aquecimento global. Tem que ser menos de 2º C caso contrário nossa situação ficará crítica neste habitat.</p>
<p>Acabamos um processo exaustivo de negociações, depois de duas semanas andando para cima e para baixo, no Centro de Convenções de Doha, lugar enorme que nos consumiu e nos impedia de ter a noção do que acontecia por dentro. Muitas atividades, e as negociações mais importantes eram fechadas, sem acesso público até de delegados. Era um mundo de coisas difíceis  de se localizar. Dava uma enorme sensação de solidão.</p>
<p>Um pouco diferente das outras COPs de Mudança Climática, que pelo menos, tinham gente do lado de fora, fazendo barulho nas ruas existia um sentido imediato entre dentro e fora. Isso nunca me pareceu tão fundamental como nesta conferência. Mesmo as manifestações internas se perdiam naquela imensidão de espaço e a mídia também, pouco se importava. Dos noticiários que acompanhei, dos grandes jornais o AL Jazeera e o The Gardian foram as melhores coberturas.</p>
<p>No contexto da sociedade civil, tivemos importantes manifestações feitas pela Christian Aid, Oxfam, Grennpeace, Action Aid, IBON, TWN, Articulações de Mulheres, APRODEV/ACT, a CUT do Brasil, Vitae Civilis, Fórum de Mudanças Climáticas, e eu pela REBRIP/INESC, entre outros grupos acompanhando, organizando debates e fazendo demonstrações contra o processo dentro do Centro de Convenções. Foram importantes momentos de demonstração de nossas posições e frustrações com os tomadores de decisão.</p>
<p>O Protocolo de Quioto foi adiado por mais 8 anos, parece que esta é a boa notícia. Essa era a posição defendida pelo governo brasileiro desde o princípio. Porém, o custo deste acordo foi a saída de importantes poluídores do Planeta, tais como Russia, Japão e Canadá. Somando com os EUA e China que continuam fora. Podemos afirmar que os 35 países desenvolvidos que ficaram, Austrália + UE, respondem por apenas 15% das emissões de gás estufa que promovem, segundo os cientistas do IPCC, o aquecimento acelerado do Planeta.</p>
<p>Como o Protocolo era o único mecanismo de tratado internacional com caráter vinculante, a saída destes países e a não entrada dos EUA e China, acabam tornando profundamente frágil  o PK (Protocolo de Quito).  O PK obriga aos países signatários baixar suas emissões radicalmente para aquela que estava sendo realizada antes de 1990.</p>
<p>Os cerca de 200 países presentes na conferência, que não teve presença massiva de Chefe de Estados, só de Ministros, concordaram também  em revisitar o tema de financiamento aos países pobres a partir do ano que vem. Temos importantíssimos como transferência tecnológica, Desenvolvimento de Mecanismos Limpos (MCD), REDD, ADP(Plataforma de Durban) entre outros. ADP será o espaço onde vários destes temas serão recolocados e como observou o Embaixador brasileiro, André Lago, deverá ser feito de uma nova forma, mais criativa do que tem sido as negociações da COP até agora.</p>
<p>A Ministra do Meio Ambiente do Brasil, disse em suas palavras finais que “não estamos satisfeitos com o resultado. Queremos mais, acreditamos que é preciso mais. Mas, acredito que a reafirmação do segundo termo do Protocolo de Quioto, por definição, é um sucesso.”</p>
<p>Lamentavelmente, não é o que pensamos nós e o que pensa a vasta maioria das organizações da sociedade civil presentes ( ou ausentes daquele evento em Doha), nem da grande maioria dos acadêmicos assim como para os países não desenvolvidos, especialmente os mais pobres e os insulares (onde o risco e a eminência de sumirem, literalmente, do mapa é real e já com evidencias em alguns destes países).</p>
<p>O resultado rebaixou o Protocolo de Quioto, fragilizou-o a níveis que não esperávamos. Agora resta pensar e refletir sobre estes resultados, somar com aqueles fracos resultados da Rio+20 e observar como o mundo atual se reestrutura no âmbito mundial por meio de redução dos espaços multilaterais, redução do marco internacional dos Direitos e buscando soluções por meio da privativação não só dos Estados Nacionais (processo antigo da tendência neo-liberalizante e de redução do papel do Estado e fragilização dos governos como instância prioritária de mediação e fiscalização dos diferentes setores), mas agora, em passado recente uma clara privatização das instituições de caráter público e multilateral, como é a  Organização das Nações Unidas (ONU) e suas instituições vinculadas, como é o caso do PNUMA, entre outras.</p>
<p>Por essas e por outras é que o que ficou, na longa volta para casa, deste processo da COP 18 foi um grande gosto amargo no corpo e na alma. Quando vamos tomar as decisões ? Quem serão aqueles que de fato terão capacidade de fazê-las? O tempo dirá.</p>
<p><b>Antropóloga, membro do colegiado de gestão do Inesc </b>que integra a Rede Brasileira Pela Integração dos Povos (Rebrip). É  uma das representantes da sociedade civil organizada brasileira na COP 18.</p>]]></content:encoded>
    <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
    <dc:creator>inesc</dc:creator>
    <dc:rights></dc:rights>
    <dc:date>2012-12-19T11:55:00Z</dc:date>
    <dc:type>Notícia</dc:type>
  </item>


  <item rdf:about="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/uma-digressao-para-entender-os-impasses-da-cop-18-em-doha">
    <title>Uma digressão para entender os impasses da COP 18, em Doha.</title>
    <link>http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/uma-digressao-para-entender-os-impasses-da-cop-18-em-doha</link>
    <description>Países como Canadá, EUA, Japão, Austrália, Nova Zelândia, entre outros, não querem firmar um segundo termo do Protocolo de Quioto.</description>
    <content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p class="bodya"><b>Por Iara Pietricovsky*</b></p>
<p class="bodya">O mundo, e em especial os brasileiros, ainda guardam na memória o acontecimento de um dos mais importantes eventos deste século, a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, conhecida como a Rio+20, realizada na cidade do Rio de Janeiro, em junho deste ano. Foi um processo que mobilizou organizações da sociedade civil e movimentos sociais nos âmbitos local, nacional, regional e global. Da mesma forma, movimentou governos e o setor empresarial corporativo, maior ganhador neste processo todo, lamentavelmente. A lógica financeira e comercial prevaleceu.</p>
<p class="bodya">Paralelo à Ri0+20 oficial, no parque do Flamengo da linda cidade do Rio de Janeiro, aconteceu outro evento oriundo de processos sociais, de maior sucesso e efetividade, a Cúpula dos Povos.  Este reuniu os setores democráticos da sociedade civil organizada e conseguiu, numa tentativa profunda de reorganização do campo político envolvido, construir agendas de comum acordo. O documento final apresentou propostas alternativas e a Cúpula estabeleceu um diálogo com o processo oficial e com a sociedade mais ampla. Foi incomparavelmente mais responsável em sua missão que a Cúpula Oficial, que em contrapartida produziu um documento pífio, com poucos avanços e alguns retrocessos, além da evidente privatização do sistema multilateral internacional.</p>
<p class="bodya">A Rio+20 aconteceu 20 anos após um dos ciclos mais ricos de reafirmação de marcos jurídicos internacionais no âmbito dos direitos humanos: a Rio 92, também realizada na cidade do Rio de Janeiro, foi o começo de um Ciclo de conferências sobre desenvolvimento e meio ambiente, direitos sociais, mulheres, população, financiamento e racismo da Organização das Nações Unidas (ONU), que a despeito do auge do neoliberalismo no mundo aprofundou acordos internacionais primordiais para a democracia e ampliou o campo dos direitos fundamentais envolvendo os aspectos, econômicos, culturais, sociais, ambientais, sexuais, além daqueles conceitos amplamente já reconhecido que são os direitos políticos e civis. Em 20 anos a compreensão e as interpretações do que são os direitos coletivos e individuais ficaram mais claros e com capacidade de aplicação real nos fóruns internacionais assim como nos planos nacionais, (Ex: as novas constituições da maior parte dos países na América do Sul expressam a incorporação destes direitos).</p>
<p class="bodya">Também foi nesta década de 90, que paralelo ao aprofundamento dos Direitos, o mundo neoliberal e capitalista, mais propriamente em 1994/95 trouxe à agenda regional e global o debate sobre a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) e todo o ciclo da Rodada de Doha no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). Na contra mão do que se defendia no marco dos Direitos Humanos e entre os movimentos da sociedade civil organizada. Os governos, cada vez mais capturados pela lógica privada do Estado mínimo e da supervalorização da iniciativa privada começaram a abrir frentes de negociação numa lógica de subordinação dos países em desenvolvimento aos chamados países desenvolvidos e centrais do capitalismo, Europa e EUA especialmente e do grande capital financeiro.</p>
<p class="bodya">Essa lógica dominou a agenda em meados dos 90 e no caso da América do Sul, com os novos governos de esquerda, foi possível suspender o debate dobre a ALCA, porém, transformando a OMC num espaço de decisão dos rumos do mundo, numa lógica de mercantilização generalizada. A aposta é que esse ciclo se encerraria em Hong Kong, com a anuência de importantes países do sul, inclusive Brasil, que apostou e ainda aposta suas fichas no espaço multilateral da OMC. Entretanto, esta também parece que sucumbiu, como consequência de sucessivas crises e tensões políticas e econômicas. Hoje, ficou reduzida a uma instituição secundária no cenário internacional e segue, neste momento, em estado letárgico, porém ajudando a lógica de mercantilização.</p>
<p class="bodya">O século XXI vem precedido de uma das manifestações populares mais importantes contra a lógica da comercialização do mundo que foi a Batalha de Seatlle, nos EUA, contra o livre comércio. Reação a supervalorização da OMC como organização de poder daquele momento no mundo. Ali começou uma série de manifestações contrárias à lógica da comercialização nos padrões hegemônicos e que continuou em diferentes formatos de expressão social, anti-globalista, em diversas partes do Planeta. Podemos citar a formação do Fórum Social Mundial, Conferência dos Povos, Enlaçando Alternativas, Campanha Contra a Dívida Externa, entre outros. Assim como manifestações nas ruas contra OMC, mais recentemente, contra sistemas opressivos, antidemocráticos, contra o domínio do mundo financeiro sobre o destino dos países e de seus povos, bem como demonstrações contra as decisões no âmbito das conferências internacionais relativas à mudança climática ou outros temas ambientais (Copenhague e Rio+20).</p>
<p class="bodya">A partir 2008, com o aprofundamento das crises políticas e econômicas, pipocam eclosões no norte da África por défict democrático e por causa da crise econômica nos países do norte, tais como Espanha, Grécia, Portugal, EUA entre outros. Agora era o norte desenvolvido que entrava em profunda tensão e se mostrava frágil e incapaz de apresentar soluções. Essa era uma crise política e comercial, mas fundamentalmente uma crise do sistema financeiro. O desequilíbrio econômico que se iniciou nos EUA com a falência das instituições financeiras, antes tidas como sólidas e críveis. Uns chamam de crise do capitalismo e outros de crise civilizatória. Na verdade, parece mais uma crise que rearticula o capitalismo para introdução de uma nova onda de acumulação, agora fundamentado na exploração da natureza, inaugurando a onda verde, ou o ciclo da economia verde. Haja vista a maneira agressiva que a lógica corporativa e do capital vai penetrando nas instituições, tradicionalmente dominadas pelos Estados Nacionais e pelo caráter multilateral, como é o caso da ONU e suas instituições vinculadas.</p>
<p class="bodya">Nessa luta do Armagedon (entre o bem e o mal, resta saber onde está um e o outro) a ONU, abre o novo milênio com uma proposta reducionista chamada as “Metas do Milênio”. Acordo esse de baixa intensidade, considerado o possível para ser atingido, até 2015, por todos os países. Já sabemos que essas metas não serão alcançadas e o mundo em crise coloca em cheque o pouco que se logrou em redução de pobreza e resolução das desigualdades.</p>
<p class="bodya">Essas metas foram uma redução radical de todo os esforços realizados durante o chamado Ciclo Social das Nações Unidas, incluindo os acordos sobre a questão ambiental e suas convenções de clima e de biodiversidade, obtidas na Rio 92. Algumas organizações da sociedade civil acreditavam que pelo menos havia, pela primeira vez, metas definidas, mesmo que reduzindo o escopo daquilo que já tinha sido acordado e assinado pela maioria dos países membros da ONU.</p>
<p class="bodya">Para outros, foi uma agenda de resistência e construção crítica. Entretanto, uma coisa parecia clara: os setores que buscavam alternativas ao capitalismo selvagem ou contra o próprio capitalismo estavam perdendo terreno. O que podemos dizer é que o Século XXI veio reduzindo direitos, impondo uma lógica financista e comercial em níveis nunca antes imaginados pela mente humana. E é nesse ponto que parece que nos encontramos agora.</p>
<p class="bodya">É neste contexto que conferências e debates como a Rio+20 ou as Conferências das Partes sobre Mudança Climática, (COP 18), ou Biodiversidade estão sendo realizadas e suas decisões adiadas, na melhor das hipóteses. Na vida real, vemos retrocessos e países sem vontade política para assumir os compromissos já firmados, quem diria compromissos mais audaciosos.</p>
<p class="bodya">Passaram-se cinco meses da Rio+20, nos encontramos com a Conferência das Partes 18,  acontecendo na capital do Catar, Doha. Quem chega nesta cidade não acredita nem um pouco que a lógica frenética do crescimento a todo custo vai mudar. Quem entra nesta cidade não pode acreditar que esta conferência terá resultados audaciosos, muito menos, alguma definição. Doha é uma cidade em frenética construção de prédios, usando a mão de obra de países como Índia, Indonésia, Bangladesh, Morrocos, Filipinas etc.  É um ponto de encontro de gente de todos os lugares do mundo sem uma personalidade própria. Muçulmanos mesclados e cortados pelo munso ocidental cristão. Esta foi minha primeira impressão.</p>
<p class="bodya">Quais são os temas fundamentais desta conferência sobre clima? Entre outros, definição final sobre a adoção (ou não) de um segundo termo do Protocolo de Quioto. Neste Protocolo os países ricos deverão assumir a redução das emissões de efeito estufa. Esse Protocolo é importante porque é vinculante e tem consequências importantes para o futuro;  a Cooperação de Longo prazo sobre o Plano de Bali, de 2007. Resoluções ainda precisam ser tomadas sobre a redução das emissões de gazes de efeito estufa; financiamento efetivo e com capacidade de ajudar os países em desenvolvimento com adaptação, mitigação; transferência tecnológica, e; Integrar os EUA aos Acordos.</p>
<p class="bodya">Os impasses e as resoluções desta COP estão intrinsecamente ligadas às definidas pela Rio+20 e os caminhos que serão apresentados também começam a revelar aspectos preocupantes. Passada a primeira semana de trabalhos, nada avançou, relativos a estes temas mais fundamentais. Países como Canadá, EUA, Japão, Austrália, Nova Zelândia, entre outros, não querem firmar um segundo termo do Protocolo de Quioto. Decisões sobre o financiamento de longo prazo, que substituirá o atual mecanismo ainda não saíram do papel. Esta semana estão chegando os ministros e chefes de Estado e assim esperamos que algumas decisões sejam tomadas. O que sairá daqui será tímido, mesmo que os debates se encerrem para uma nova retomada no próximo ano e temo que em níveis pouco ambiciosos.</p>
<p class="bodya">A questão é que em Doha, sequer contamos com uma sociedade civil local consciente capaz de manifestar-se publicamente. Poucos sabem o que está acontecendo nesta cidade, lamentavelmente, e os que aqui estão carregam uma desilusão sobre os processos, que neste 2012 encerram um longo ciclo iniciado no início dos anos 90, com a Rio 92. Neste sentido, resta-nos pensar com mais profundidade não só os processos como nossas estratégias. Sem medo de sermos, em algum momento, felizes.</p>
<p class="bodya"> </p>
<p class="bodya"><b>Antropóloga, membro do colegiado de gestão do Inesc </b>que integra a Rede Brasileira Pela Integração dos Povos (Rebrip). É  uma das representantes da sociedade civil organizada brasileira na COP 18.</p>
<p> </p>
<p> </p>]]></content:encoded>
    <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
    <dc:creator>inesc</dc:creator>
    <dc:rights></dc:rights>
    <dc:date>2012-12-13T13:05:00Z</dc:date>
    <dc:type>Notícia</dc:type>
  </item>


  <item rdf:about="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/chega-de-conversa-fiada">
    <title>Chega de conversa fiada: Governo Dilma inviabiliza o controle social das políticas públicas</title>
    <link>http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/chega-de-conversa-fiada</link>
    <description></description>
    <content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p class="Padro">Gilda Cabral<a href="file:///C:/Users/IVONEM~1.INE/AppData/Local/Temp/Artigo%20Gilda%20-%20enxuto.doc#_ftn1">[1]</a></p>
<p class="Padro" style="text-align: justify; "><b> Por que o governo adota a transparência das ditaduras? O que faz o governo dizer uma coisa e fazer outra totalmente diferente? </b>Não temos essas respostas, mas devemos pensar muito nessas perguntas. Recentemente, o governo sancionou a Lei de Acesso à Informação (LAI), criou sites, portais e telefones para contato direto com a população, estimulando denúncias de mau uso das verbas públicas. Ao mesmo tempo, embola e confunde as pessoas com a falta de transparência sobre os recursos e gastos governamentais.  No campo das finanças públicas, retoma a prática da ditadura militar, na qual o Congresso Nacional e a sociedade não têm voz sobre os recursos públicos e nem acesso a informações que permitam monitorar e avaliar os gastos governamentais e as políticas públicas. Discursos e dispositivos legais conflitantes nada têm com dialética, é prática autoritária mesmo. Além disso, tornam inviável o controle social do gasto público e dificultam o controle externo feito pelo Tribunal de Contas e Ministério Público. Entre os tempos de ditadura e o atual momento, a diferença básica é que agora tudo foi devidamente autorizado pelo Congresso Nacional. Mas o que, exatamente, tornou o controle dos gastos governamentais inviável?</p>
<p class="Padro" style="text-align: justify; ">A partir de 2013, parlamentares e sociedade ficarão totalmente dependentes do governo federal para saber as informações orçamentárias e aquelas relativas à execução financeira das ações que implementam as políticas públicas. Não há mais correspondência entre as leis que definem o Planejamento e o Orçamento da União devido ao grau de agregação adotado no Plano Plurianual (PPA) e na Lei Orçamentária Anual (LOA). Apesar das muitas normas legais sobre participação social, transparência e acesso a informações e ainda tantos discursos e intenções democráticas, o governo não está promovendo de fato a transparência. Se não forem derrubados os vetos à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) 2013, o governo tem autorização do Congresso para informar o que, quando, como e onde quiser.</p>
<p class="Padro" style="text-align: justify; ">Aparentemente, os parlamentares federais abdicaram de decidir e monitorar os recursos públicos, pois aumentaram de 31 (em 2002) para 96 as hipóteses de alteração da LOA por decreto, e ainda autorizaram ampla flexibilidade ao Executivo para abertura de crédito (20%) e alteração das verbas do PAC (30%) criando situações de total independência para o governo.</p>
<p class="Padro" style="text-align: justify; ">Nem ao menos autorizativo é o orçamento da União, pois com tanta flexibilidade e delegação de competências para o Executivo, a permissividade é total. O atual momento é muito semelhante aos tempos dos governos militares quando ao Congresso só cabia homologar os gastos do governo. O que se observa é uma inversão de papéis: onde o Legislativo propõe e o Executivo veta, como observamos no caso recente da LDO2013 e, por outro lado, tudo que é proposto pelo governo, o Parlamento aprova.</p>
<p class="Padro" style="text-align: justify; ">Toda essa flexibilidade dada ao Executivo traz sobreposição de regras, detalhamentos excessivos e situações específicas que prejudicam a compreensão do conjunto dessas autorizações, além de percentuais aplicáveis para aberturas de crédito cada vez maiores. Estes problemas, somados à generalidade aplicada no detalhamento das ações orçamentárias e da dissociação do planejamento (PPA) e orçamento (LOA), geram o seguinte questionamento: até que ponto a Lei Orçamentária é pra valer ou apenas uma peça formal de aceite homologada pelo Parlamento?</p>
<p class="Padro" style="text-align: justify; ">Para os movimentos de mulheres e feministas, atuar no campo das finanças públicas e no monitoramento dos recursos permitiu uma significativa educação política. Foi na militância e na luta por mais recursos que nos qualificamos e incidimos na política econômica do país. Foi monitorando o gasto público que mostramos quão desigual podem ser algumas políticas governamentais que reforçam o papel tradicional e reprodutivo das mulheres.</p>
<p class="Padro" style="text-align: justify; ">Nossa atuação nessa área trouxe mais que recursos financeiros para as políticas da igualdade. A bancada feminina no Congresso passou a receber subsídios do Orçamento Mulher e a atuar sistematicamente no processo e discussão das peças orçamentárias; os movimentos de mulheres se apoderaram de informações importantes, passando a propor ações governamentais concretas. Foi essa atuação que contribuiu para o entendimento de que as políticas públicas são um direito da cidadania e não apenas uma ação governamental para solucionar um problema da sociedade.</p>
<p class="Padro" style="text-align: justify; "><b>O governo perde muito ao inviabilizar o Orçamento Mulher </b></p>
<p class="Padro" style="text-align: justify; ">O Brasil era o único país que tinha o acompanhamento diário, com amplo acesso às informações sobre a aplicação dos recursos públicos voltados para as políticas para as mulheres. Para nossa tristeza, será justamente no governo da primeira mulher presidenta que o país não mais poderá ostentar tal façanha. Os orçamentos sensíveis a gênero (PSG) representam um esforço de décadas da ONU MULHERES que, no Brasil, teve sua implementação pela ONG CFEMEA em parceria com a SPM da Presidência da República, os movimentos de mulheres e feministas e o Senado Federal, através do SIGA (Sistema de informações sobre orçamento público).</p>
<p class="Padro" style="text-align: justify; ">O Orçamento Mulher tem mais de 10 anos de existência e presta inegáveis serviços às entidades, especialistas e pessoas que acompanham e avaliam as políticas do governo federal. É o instrumento principal para monitorar o gasto e a execução orçamentária e financeira das ações governamentais e políticas para efetivar os direitos das mulheres. Atualmente, com a generalização e agrupamento das ações da LOA, será impossível identificar o montante de recursos destinados às políticas para as mulheres. Como o planejamento governamental não é elaborado a partir da perspectiva de gênero, sempre haverá dificuldades para conhecer o montante real de recursos para implementar políticas para a igualdade. Contudo, até 2012 era possível ponderar e alertar para possíveis distorções dos valores alocados, o que passa a ser inviável a partir de 2013.</p>
<p class="Padro" style="text-align: justify; ">Na área das políticas sobre violência contra a mulher, por exemplo, o CFEMEA conta com informações do gasto federal desde 1995 até 2012. Com as novas metodologias do governo federal, só nos restará acompanhar ações pontuais e específicas. A falta de continuidade histórica das análises é uma perda inestimável. E lamentavelmente todas essas mudanças metodológicas são passadas como “melhorias técnicas” quando na realidade são decisões políticas com conseqüências lamentáveis para o exercício da cidadania.</p>
<p style="text-align: justify; "> </p>
<hr size="1" style="text-align: justify; " width="33%" />
<p style="text-align: justify; "><a href="file:///C:/Users/IVONEM~1.INE/AppData/Local/Temp/Artigo%20Gilda%20-%20enxuto.doc#_ftnref1">[1]</a> Gilda Cabral é feminista, sócia fundadora do CFEMEA, aposentada do IPEA  e especialista em políticas públicas.</p>]]></content:encoded>
    <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
    <dc:creator>ivonem</dc:creator>
    <dc:rights></dc:rights>
    <dc:date>2012-10-25T18:50:00Z</dc:date>
    <dc:type>Notícia</dc:type>
  </item>


  <item rdf:about="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/ministro-explica-politica-externa-na-camara">
    <title>Ministro explica política externa na Câmara</title>
    <link>http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/ministro-explica-politica-externa-na-camara</link>
    <description></description>
    <content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p>Edélcio Vigna, assessor político do Inesc</p>
<p> </p>
<p>A Audiência Pública na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CREDN), da Câmara dos Deputados, com o Ministro Antonio Patriota, de Ministério de Relações Exteriores, deixou a desejar. A pauta “Planejamento do MRE para o ano de 2012”, é um vazio de objetividade que dá margem a qualquer tipo de discurso. O Ministro abusou da generalidade e ficou boa parte do seu tempo quantificando as suas reuniões e as da Presidenta Dilma Rousseff.</p>
<p>Tocou como excesso de diplomacia nos problemas “chaves” que os deputados queriam ouvir, como a questão da suspensão do Paraguai e a entrada da Venezuela do MERCOSUL. Negou enfaticamente que a Presidenta Dilma interferiu na decisão de suspender o Paraguai do MERCOSUL. Enfatizou a importância da democracia, da Clausula Democrática, e da unanimidade para suspensão do Paraguai. Recorreu à Declaração da Unasul, que abriga países da Alba e países que assinaram tratados de livre comércio com os Estados Unidos, para justificar a posição do Brasil.</p>
<p>Reafirmou que não existe tolerância para a violência contra a democracia. Retomou o tema da integração como um impulso a democratização e o fundamento d parceria com os países vizinhos. O governo não vê a amizade Brasil-Paraguai comprometida e espera restabelecer rapidamente contatos plenos.</p>
<p>Avaliou a importância da entrada da Venezuela no MERCOSUL. Declarou que a proposta de cooperação continental crescente envolve a região da América do Sul e a do Norte. A construção de uma região de paz significa a pacificação definitiva dos conflitos. Citou o presidente Juan Manuel Santos, da Colômbia, que está negociando a paz com as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Vê nesta atitude de Santos uma oportunidade histórica para as gerações que não viram uma Colômbia pacífica.</p>
<p>Tocou rapidamente na relação entre os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) e a necessidade de inserir na agenda de discussão a pauta ambiental. Apresentou o que denominou de “Agenda da Paz e Segurança Internacional”. Esta agenda aborda os conflitos no Oriente Médio: a questão Israel-Palestina e a guerra civil que está ocorrendo na Síria.</p>
<p>A posição brasileira na questão Síria é de apoiar os refugiados e buscar recuperar a integridade da Síria com a comunidade internacional. Avaliou que Kofi Annan,<i> ex-</i>secretário-geral da Organização das Nações Unidas e Nobel da Paz (2001), é o melhor negociador para mediar o conflito sírio.</p>
<p>A questão Israel-Palestina não foi foco vertical e o Ministro se bastou em dizer que o conflito está sendo monitorada pelo “quarteto” ONU-Rússia-Estados Unidos-União Europeia. Sobre a África fez apenas breves considerações.</p>
<p>Sobre as metas da presidência pró-tempore do Brasil no MERCOSUL, neste semestre, o Ministro Patriota adiantou que a prioridade é capacitar o os Estados Partes pra um mundo competitivo. Resaltou que a produção brasileira se destaca, além dos produtos primários, com bens elaborados e de alta tecnologia.</p>
<p>A intervenção dos deputados da CREDN se restringiu a entrada da Venezuela e da suspensão do Paraguai do MERCOSUL e do conflito-guerra civil na Síria. Sobre a questão sul-americana o debate ocorreu mais entre os parlamentares do que entre estes e o Ministro Patriota. Quanto à segunda questão o Ministro se limitou a apoiar o nome de Kofi Annan como negociador do conflito.</p>
<p>Ao terminar a sessão ficou no ar uma sensação de debate inacabado. Com questões não respondidas e muitos temas não aprofundados. Havia, por parte dos deputados e participantes, que Patriota havia apenas formalmente cumprido o dever de atender ao convite da Comissão. Não acrescentou nada além do que já foi publicado na mídia. Considerando o Congresso como um dos poderes do Estado o Ministro deveria ter ousado e debatido os rumos da política externa brasileira na atual conjuntura.</p>
<p>O Embaixador Patriota não fez nenhuma análise conjuntural do impacto da China no mercado internacional, em especial sobre os mercados do Cone Sul ou no Brasil. Não tocou na instabilidade da zona do Euro ou da situação econômico-eleitoral dos Estados Unidos. A opção do Ministro de apresentar aos parlamentares uma visão cartesiana das relações exteriores do país prejudicou muito a compreensão da dinâmica da comunidade e dos mercados internacionais.</p>
<p>O Itamatary, que tradicionalmente foi um órgão menos dependente, está se subjulgando ao poder presidencial e abrindo mão de ser um propositor da política externa para o conjunto do governo.</p>]]></content:encoded>
    <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
    <dc:creator>inesc</dc:creator>
    <dc:rights></dc:rights>
    <dc:date>2012-09-25T13:55:00Z</dc:date>
    <dc:type>Notícia</dc:type>
  </item>


  <item rdf:about="http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/bancada-ruralista-volta-a-desafiar-a-presidente-dilma-rousseff">
    <title>Bancada Ruralista volta a desafiar a presidente Dilma Rousseff </title>
    <link>http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/artigos/bancada-ruralista-volta-a-desafiar-a-presidente-dilma-rousseff</link>
    <description>Integrantes da bancada aprovaram um emenda que acaba com as florestas ciliares em rios não perenes.</description>
    <content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p><b>Edélcio Vigna, assessor político do Inesc</b></p>
<p>Os rios são grandes porque recebem águas de seus afluentes. A Bancada Ruralista não entende que os grandes rios precisam dos pequenos, pensam que são grandes porque são. Seguindo essa lógica primária, aprovaram uma emenda que acaba com as florestas ciliares em rios não perenes.</p>
<p>Os ruralistas parecem desconhecer a existência de uma rede hidroviária. Um complexo de canais de águas perenes e sazonais ou não perenes que alimenta não só os rios permanentes, mas que compõe ecossistemas aquáticos interiores como rios e canais subterrâneos, lagoas, brejos e pantanais.</p>
<p>Os ruralistas, mais uma vez, viraram as costas ao futuro do país para eleger com mesquinha prioridade os lucros setoriais de curto prazo. O Estado como representante institucional da Nação não pode mais se omitir. Setores produtivos, religiosos, acadêmicos, de pesquisa, artistas, organizações e movimentos populares e sócio-sindicais se manifestaram à exaustão contra o processo de elaboração do Código Florestal aprovado no Congresso Nacional, que praticamente não acatou nenhuma proposta destes setores. A Campanha “<i>Veta, Dilma</i>!” ganhou as ruas e chegou ao Palácio do Planalto, mas não foi suficiente para sensibilizar a Presidenta.</p>
<p>A presidenta da República Dilma Rousseff sancionou o Código e vetou alguns artigos Em seguida, editou uma Medida Provisória para que não houvesse descontinuidade no Código sancionado. Os vetos devem ser aprovados ou rejeitados pelo Congresso Nacional. Para isso, foi formada uma Comissão Mista (deputados e senadores) que recebeu mais de 600 emendas. O presidente é o deputado Bohn Gass (PT-RS) e o relator é o senador Luiz Henrique (PMDB-SC).</p>
<p>A Bancada Ruralista, liderada pela presidenta da Confederação Nacional da Agricultura, senadora Kátia Abreu (PSD/TO), se sentiu desrespeitada pela Presidenta Dilma Rousseff. E, em nome da Bancada lançou um desafio ao poder Executivo e impôs o interesse econômico e a visão de mundo conservadora e retrógrada da oligarquia rural, como se fosse a visão do Legislativo.</p>
<p>A provocação ruralista vai além da emenda dos rios não perenes. Aprovaram outro destaque que tratava do regime de pousio, que é um período em que se deixam as terras de semeadura para recuperarem a fertilidade. Na proposta dos ruralistas estava embutido que o pousio poderia se estender a toda propriedade, sem limite de tempo. Se aprovada na íntegra a proposta seria mais um impedimento para a reforma agrária, pois os imóveis rurais improdutivos não poderiam ser desapropriados.</p>
<p>O senador Luiz Henrique (PMDB-SC), relator da MP, fez uma contraproposta segundo a qual as áreas em pousio poderiam ser computadas como reserva legal do imóvel por um período máximo de cinco anos observado o limite de até 25% da propriedade. Na negociação de um texto de consenso os ruralistas conseguiram retirar o trecho que trata da área máxima (até 25%), mas manteve o prazo até cinco anos.</p>
<p>Dessa forma, por cinco anos a reforma agrária terá que enfrentar mais um obstáculo, além da resistência da oligarquia agrária e seus representantes nos três poderes da República. O ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas, recebeu da Presidenta Dilma uma missão que dificilmente poderá ser cumprida caso o Código Florestal continue sendo instrumentalizado pela Bancada Ruralista.</p>
<p>Os ruralistas insistem em se esconder por detrás do véu do poder Legislativo para impor seus interesses à Nação. O Estado, em especial o Executivo, deve romper com a letargia em que se encontra e, dentro de suas competências, atuar com energia contra o esse ou qualquer setor que tente impor sua vontade como vontade da Nação, que deve ser aferida por meio da realização de referendos.</p>]]></content:encoded>
    <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
    <dc:creator>inesc</dc:creator>
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    <dc:date>2012-09-25T13:52:10Z</dc:date>
    <dc:type>Notícia</dc:type>
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